Durante o Festival de Cannes, Woody Allen encontrou-se com o repórter do Estado para uma entrevista exclusiva sobre seu filme Meia Noite em Paris. Sucesso de público e crítica em Cannes, o novo Allen estreia amanhã, certamente para seduzir os fãs do ator, diretor e roteirista (autor completo), porque se trata de um de seus trabalhos mais encantadores. Allen reabre a vertente de A Rosa Púrpura do Cairo e de Simplesmente Alice em sua carreira. Deixa entrar o maravilhoso. Aqui, a segunda parte da entrevista com ele (a primeira foi publicada no dia 16/5), centrada menos na obra e mais na atração que a França, e Paris, exercem sobre ele.
A primeira vez em Paris a gente não esquece. A sua, em 1964, como foi?
Há quase 50 anos eu era bem mais jovem e certamente muito mais impressionável. Havia sido contratado para escrever e interpretar O Que É Que Há, Gatinha?. O filme virou um cult da tendência Swinging London, refletindo na tela as transformações que estavam ocorrendo, principalmente em relação ao comportamento sexual. Eu era o cara ideal paras escrever What`s New, Pussycat?. É a história de um paciente atraído por todas as mulheres do mundo e sua relação com a psicanálise. Peter Sellers fazia o analista, imagine só. Conheci Peter O`Toole, Ursula Andress, Romy Schneider. De repente, eu, um jovem de Nova York, cheio daquelas ideias que a literatura me dera sobre Paris estava sendo transportado para outro mundo. Mas a experiência talvez seja mais divertida na tela. Produção, direção, foi tudo muito caótico. A mídia não desgrudava da gente. Não é a minha melhor lembrança de cinema nem de Paris.
Com Meia Noite em Paris, você reabre uma vertente de sua carreira, abre uma janela para o maravilhoso. É a trilha de A Rosa Púrpura do Cairo, um de seus clássicos, e Simplesmente Alice, que me encanta, mas não obteve a mesma consagração.
Eu, às vezes, me angustio porque filmes de que gosto muito não são tão bem recebidos. Raramente me pergunto onde foi que errei, acho sempre que é um problema de sintonia. Mas gosto que você goste da minha Alice. Essa vertente do maravilhoso, como você diz, me atrai porque é, óbvio, o cinema tem um aspecto de sonho. Já disse que o título de Meia Noite em Paris me veio antes da história. O que pode ocorrer à meia-noite numa cidade tão mágica como Paris? O próprio título me liberava para sonhar e viajei à Paris que moldou meu imaginário, as dos grandes escritores e artistas. Hemingway, Fitzgerald e Zeldas,Buñuel. Poderia ter calcado o filme em outros escritores, mas preferi os que povoam o imaginário de todo o mundo. O desafio era escrever frases curtas, sintéticas, como Hemingway.
Seu personagem, interpretado por Owen Wilson, acredita que Paris, nos anos 20, foi a melhor época de todas. Você concorda?
Oh, é um ponto de partida. Sem dúvida que aquela época foi fundamental. Marcou um turning point na literatura e no cinema do século 20. Uma época de grandes mudanças estéticas. O mundo saía de uma grande guerra, todos queriam mudar. Mas toda época tem seu encanto, sua capacidade de se renovar. Nós é que, às vezes, ficamos enferrujados e não prestamos atenção.
Owen é, para mim, seu melhor alter ego na tela. É um andarilho. Você também caminha muito?
Em Paris, em Nova York, sim, gosto muito de caminhar. E obrigado por Owen. Ele me mimetizou sem que eu ficasse cobrando. O personagem sai pela noite, caminhando. Eu caminho de dia. Se não me preocupo em me disfarçar, passo perfeitamente despercebido. A inspiração me vem enquanto caminho. Situações, diálogos. Tudo fica mais fácil.
Por onde gosta de caminhar?
Os Champs Elysées são ótimos, mas estão sempre muito cheio de turistas. Gosto dos parques, Tuilleiries, Luxemburgo.
Onde você se hospeda?
Gosto de ficar no Ritz, mas em geral são temporadas curtas. Desta vez, as temporada foi longa, estava com a família. Soon-yi fazia questão de uma cozinha para as crianças. Ficamos no Bristol, mas a Place Vendôme (onde fica o Ritz) me fez falta.
Comer bem em Paris…
Ah, você não precisa ir aos grandes restaurantes, que Paris tem. Há centenas, milhares de bistrôs que são aconchegantes. É uma cidade na qual se come muito bem. Um dos prazeres é comer num desses lugares simpáticos que você encontra por acaso.
E os cinemas de arte-ensaio?
Nova York se orgulha de ser cosmopolita e ter cinemas alternativos, mas Paris é a capital da cinefilia. Um dia vou vir para cá só para rever na tela grande os filmes clássicos que fizeram e ainda fazem minha cabeça.