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Uso de fentanil entre profissionais de saúde expõe falhas em cuidados e prevenções

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27/07/2026 | Uso de fentanil entre profissionais de saúde

Uso de fentanil entre profissionais de saúde expõe falhas em cuidados e prevenções

Sintético, altamente potente e tradicionalmente restrito a ambientes hospitalares, o fentanil deixou de ser apenas um medicamento usado em anestesia e cuidados paliativos para se tornar um dos maiores motores da crise de overdoses no mundo. Nos Estados Unidos, ele já responde por mais mortes do que acidentes de trânsito em determinadas faixas etárias. No Brasil, embora o fenômeno ainda não seja de larga escala, sinais de alerta começam a surgir, especialmente com a contaminação de outras drogas e o uso indevido por profissionais de saúde.

Em entrevista exclusiva para o Simesp, a psiquiatra Mariana Campello, especialista em transtornos por uso de substâncias e doutoranda em psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica o que é o fentanil, por que ele é tão perigoso, como atua no organismo, quais os desafios do tratamento da dependência e por que médicos e outros profissionais da saúde figuram entre os grupos mais vulneráveis. A conversa também aborda caminhos de prevenção, regulação e cuidado, principalmente antes que o problema atinja proporções irreversíveis no país.

Simesp: Para começar, o que é o fentanil e como ele se diferencia de outros opioides, tanto na prática clínica quanto em termos de potência e risco?
Mariana Campello: O fentanil é um opioide sintético, ou seja, totalmente produzido em laboratório. Diferente dos opioides naturais, como a morfina e a codeína, que derivam da papoula, o fentanil não tem origem vegetal. Ele é usado quase exclusivamente em contextos muito específicos, como anestesia e, em alguns casos, cuidados paliativos oncológicos, justamente porque é extremamente potente. Estamos falando de uma substância cerca de 100 vezes mais potente que a morfina, o que faz com que uma quantidade muito pequena já seja suficiente para causar intoxicação grave e até morte por overdose.

Simesp: Essa potência ajuda a explicar o aumento expressivo de mortes associadas ao fentanil, especialmente nos Estados Unidos?
Mariana Campello: Com certeza. A grande preocupação com o fentanil é exatamente essa margem muito estreita entre a dose “efetiva” e a dose letal. Nos Estados Unidos, o problema começou com um aumento significativo da prescrição de opióides a partir dos anos 2000. Quando essas pessoas, já dependentes, perderam acesso às medicações prescritas, passaram a buscar substâncias mais potentes no mercado ilegal. O fentanil entrou nesse cenário por ser barato, fácil de produzir e extremamente potente. O resultado foi um aumento dramático das mortes por overdose, a ponto de superar outras causas externas em algumas faixas etárias.

Simesp: Além do uso direto, há o problema da adulteração de outras drogas com fentanil. Como isso agrava o cenário?
Mariana Campello: Esse é um ponto central. O fentanil começou a aparecer misturado a outras substâncias, como heroína, cocaína e até maconha ou canabinóides sintéticos. Muitas vezes, o usuário não sabe que está consumindo fentanil. Como ele é extremamente potente, alguém sem qualquer tolerância a opióides pode sofrer uma overdose com uma quantidade mínima. Isso torna o uso recreativo muito mais perigoso, porque a pessoa não tem controle nem informação sobre o que está consumindo.

Simesp: E no Brasil, já é possível falar em um problema disseminado?
Mariana Campello: Ainda não em larga escala, mas os sinais estão aparecendo. Na prática clínica, já atendemos pacientes que chegam ao pronto-socorro com síndrome de abstinência de opióides e negam ter usado esse tipo de substância. Quando investigamos, percebemos que consumiram drogas contaminadas. Há pesquisas no país identificando fentanil em amostras de cocaína, por exemplo. Isso indica que o problema está começando a se desenhar e exige atenção imediata.

Simesp: Quais são os principais desafios no tratamento da dependência de opióides como o fentanil?
Mariana Campello: O fentanil impõe desafios muito específicos. Ele tem meia-vida curta, o que significa que a abstinência começa rapidamente, às vezes em uma ou duas horas após o uso, e é extremamente intensa. A abstinência de opióides já é muito física e sofrida, mas a do fentanil é ainda mais severa. Além disso, o uso injetável aumenta o risco de erro de dose, infecções e transmissão de doenças. Por isso, o tratamento não pode ser abrupto. Muitas vezes é necessário substituir o fentanil por outros opióides de ação mais longa, para depois fazer uma redução gradual, sempre com muito cuidado e, em alguns casos, com internação para garantir segurança.

Simesp: Há também relatos de uso de fentanil entre profissionais de saúde. O que explica essa vulnerabilidade?
Mariana Campello: No nosso serviço, cerca de um terço dos pacientes em tratamento por dependência de opióides são profissionais de saúde, incluindo médicos, veterinários e técnicos de enfermagem. São pessoas que tiveram contato com a substância no ambiente de trabalho. Esse grupo enfrenta jornadas extenuantes, altos níveis de estresse, exposição constante a sofrimento e morte, além de fácil acesso às medicações. Muitos já percebiam que tinham um problema, mas tinham medo de falar, especialmente no ambiente profissional.

Simesp: Como a classe médica e os serviços de saúde podem lidar melhor com essa realidade?
Mariana Campello: É fundamental sair da lógica punitiva e avançar para uma abordagem de cuidado. Muitas vezes, o profissional é afastado do local de trabalho, mas não é encaminhado para tratamento. Isso não resolve o problema. Precisamos de protocolos claros, controle rigoroso de acesso às substâncias, psicoeducação e canais seguros para que esses profissionais possam buscar ajuda sem medo de estigmatização.

Simesp: Do ponto de vista da saúde pública, quais medidas são mais eficazes para prevenir o uso indevido de opioides?
Mariana Campello: Regulação rigorosa é essencial, especialmente dentro dos hospitais. Protocolos bem estabelecidos para controle e dispensação reduzem significativamente o risco. Além disso, é importante restringir prescrições, dificultar o acesso indevido e combater o tráfico ilegal e a falsificação dessas substâncias. Não podemos esperar que o problema atinja o nível observado em outros países para agir — quando isso acontece, o sistema de saúde entra em colapso.

Simesp: Que mensagem você deixaria para médicos e profissionais de saúde sobre o uso recreativo de fentanil?
Mariana Campello: A principal mensagem é que a dependência tem tratamento e o tratamento é eficaz. Muitos profissionais passam anos sofrendo, em uso compulsivo, sem saber para onde encaminhar ou sem receber orientação adequada. Precisamos falar mais sobre opióides na formação médica, aprender a dizer “não” de forma responsável e saber como direcionar esses pacientes. Identificar o problema cedo e indicar tratamento salva vidas e melhora enormemente a qualidade de vida.

Confira a entrevista completa no Youtube