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Um canibal busca o outro

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11/07/2011 | Notícia Simesp

Um canibal busca o outro

O primeiro a falar sobre Oswald de Andrade, homenageado da 9.ª Flip, foi seu amigo Antonio Candido, professor emérito da USP, que fez a palestra inaugural ao lado do ex-aluno, crítico e compositor José Miguel Wisnik. Candido não conheceu o autor do Manifesto Antropófago no auge da carreira, ou seja, nos anos 1920, quando Oswald e Mario de Andrade conceberam a Semana de Arte Moderna de 1922. Ambos, Oswald e Candido, se encontrariam apenas nos anos 1940. Candido escreveu um artigo severo sobre ele. Oswald retrucou. O crítico não respondeu. Em 1945, uma resenha positiva sua de um livro do modernista serviu para reconciliar os dois. "Sua agressividade tinha certa candura, ele não guardava rancor", lembrou o professor.

Candido preferiu não falar sobre a obra de Oswald de Andrade na Flip. Disse que aceitou o convite dos organizadores apenas para dar seu depoimento pessoal sobre o amigo. Suas atitudes excêntricas e seu gosto pelo choque, segundo o professor, prejudicaram tremendamente a percepção de sua obra, inclusive a jornalística, de "alta qualidade", conforme sua opinião. "Ele esmagava os críticos, ninguém queria escrever sobre seus livros", lembrou, citando como exceção Mário de Andrade, de quem o modernista invejava Macunaíma. "Foi Oswald quem o descobriu, mas depois brigaram e ele passou a vida toda tentando fazer as pazes, o que não aconteceu". O autor do Manifesto Antropófago, concluiu Candido, podia ser muito rude quando queria, alfinetando os inimigos com seu racismo e xenofobia. Paradoxalmente, Oswald foi um inconformado protofeminista, ao defender a refundação da sociedade caraíba matriarcal de Pindorama no Brasil modernista, uma sociedade que adotaria como força dominante os padrões femininos de inclusão do "outro".

O professor e compositor José Miguel Wisnik complementou o depoimento de seu mestre fazendo uma análise da ressonância do Manifesto Antropófago, especialmente nos anos 1960, quando a obra de Oswald de Andrade foi redescoberta na literatura pelo concretismo (em particular pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos), no teatro pelo grupo Oficina (O Rei da Vela, 1967), dirigido por José Celso Martinez Correa, nas artes plásticas (Hélio Oiticica e seus penetráveis), na música (o Tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil) e no cinema (Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade). "Caetano diz, no livro Verdade Tropical, que a antropofagia de Oswald caiu como uma luva para explicar a apropriação cultural que a MPB fazia dos Beatles, por exemplo, naquele momento". A identidade brasileira, segundo Wisnik, é feita dessa potência de alteridade, não por meio da devoração pela devoração, de uma liquidação troglodita do outro. "Não se trata de vomitar, mas de assimilar a cultura alheia, porque a antropofagia é um processo reflexivo da cultura do outro".

O crítico e professor argentino Gonzalo Aguilar, na mesa em que debateu com a jornalista mineira Márcia Camargo o marco zero do modernismo brasileiro, lembrou, a propósito, que as vanguardas usaram o corpo humano para subverter a ordem dos membros, comparando a escultura O Pensador, de Rodin, com a tela Abaporu, de Tarsila, pintada no mesmo ano do Manifesto Antropófago (1928). A tensão no homem de Rodin estaria na cabeça, enquanto a de Abaporu estaria nos pés, um ataque de Tarsila à primazia da razão europeia, segundo ele. Márcia Camargos, comentando a análise de Aguilar, lembrou que Oswald, em Paris, disse claramente que os modernistas brasileiros não eram "lacaios" do futurista Marinetti.

A melhor palestra das três sobre Oswald de Andrade ficou para o encerramento. Foi a do professor carioca (da UERJ) João Cezar de Castro Rocha, de 46 anos, organizador do livro Antropofagia Hoje?, esgotado em menos de dez minutos durante a sessão de autógrafos do autor. Coautor de Les Origines de La Culture ao lado do filósofo René Girard, Rocha dialogou com o crítico e poeta gaúcho Eduardo Sterzi na primeira mesa de ontem, mediada pelo curador da Flip, Manuel da Costa Pinto, Pensamento Canibal.

Castro Rocha referiu-se a movimentos europeus (o dadaísmo) e a uma observação do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, sobre a cosmovisão ameríndia que guarda semelhança com a do Manifesto Antropófago, para falar da urgência de politizar a mensagem de Oswald e acabar de vez com o modelo agônico baseado na escolha dicotômica entre o que é universal e nacional. "Ninguém questiona se Flaubert ou Dostoievski são universais, mas prevalece um certo complexo de inferioridade cultural que nos impede de ver Oswald como eles". Com isso o professor carioca pretende estimular novas abordagens de Oswald de Andrade que não sejam intermediadas apenas por estrangeiros, recomendando que se preste atenção no parceiro modernista Mário de Andrade, em especial em seu Macunaíma, que, lembrou Eduardo Sterzi, era realmente a obra que Oswald de Andrade gostaria de ter escrito. Como não o fez, acabou devorando o amigo num ritual privado de linchamento moral.

ALTOS E BAIXOS

Mudança
A ida da Tenda do Telão para o outro lado do canal deixou o centro histórico de Paraty mais livre e permitiu aos turistas conhecerem uma vista da cidade até então despercebida.

Mesas
As mesas de Miguel Nicolelis e Luiz Felipe Pondé, além das de João Ubaldo Ribeiro e James Ellroy, entusiasmaram o público, mas o escritor sensação desta 9.ª Flip foi valter hugo mãe.

Anúncios
A quantidade de anúncios paralelos, na carona no prestígio do evento, foi demais.

Mediação
Mediadores que falaram demais, causando desconforto.

Descompasso
As mesas de Claude Lanzmann, considerada constrangedora, e de David Byrne, cujos temas, importantes, nada tinham a ver com um evento literário.