14/07/2020 | Outros assuntos

Trabalho médico passa por “uberização”


No último século, a medicina se converteu de uma profissão liberal para um trabalho majoritariamente assalariado. Esse processo de proletarização ocorreu concomitante a uma progressiva precarização dos vínculos de trabalho e de degradação salarial. Esse processo se intensificou nas últimas décadas, trazendo consigo a expansão da contratação de médicos por meio de pessoa jurídica (PJ), forma de trabalho caracterizada por vínculos trabalhistas precários com poucos direitos garantidos.

Essa desregulamentação do trabalho não foi especificidade do trabalho médico e nem exclusividade do Brasil e é representado a nível mundial por meio do trabalho para “plataformas digitais”, como a Uber, que deu origem ao termo “uberização”, hoje aplicado a diferentes categorias.
No Brasil, a resposta à crise econômica incidiu sobre os trabalhadores por meio das reformas trabalhista e previdenciária. Hoje, durante a pandemia da Covid-19 (coronavírus), uma das maiores crises sanitárias e econômicas da história contemporânea, em vez de ampliar as garantias e melhorar as condições de trabalho para os profissionais de saúde na linha de frente, os governantes tornam o médico peça descartável na produção de saúde. A ausência de garantias faz com que os médicos, ao adoecerem sejam simplesmente demitidos sem nenhum tipo de remuneração.

Foi esse cenário que fez com que, no dia 1º de julho, nós do Simesp solidarizássemos com a paralisação dos entregadores de aplicativo, estando presente em apoio à causa. Nos identificamos com suas reivindicações como o pedido de garantia de afastamento remunerado e a tentativa de barrar as demissões arbitrárias por meio do “bloqueio” que podem sofrer a qualquer momento pelas empresas de aplicativo.

Os médicos que atuam na linha de frente no combate ao coronavírus, em sua maioria contratados como PJ ou como “sócios” das empresas que “quarteirizam” os serviços, também não têm seus postos de trabalho garantidos após o período de distanciamento por ter contraído a doença, o que exemplifica que hoje os profissionais da medicina são vistos como descartáveis por seus empregadores.

Nesse contexto, a historiadora Virgínia Fontes, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), explicou que essas formas de trabalho precarizado usam como artifício ideológico a retórica de “empreendedorismo”, sobrevalorizando a “flexibilidade” do trabalho, flexibilidade que na verdade permite jornadas extremamente longas de trabalho. A “liberdade” do trabalhador sofrer jornadas exaustivas de trabalho sem a proteção da legislação trabalhista. A fala foi durante live no canal do Youtube do Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses, do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Na mesma live, o sociólogo Ricardo Antunes, professor titular da Unicamp e coordenador do grupo de pesquisa, explanou que o empregado, ao sair da condição de desemprego para a de precarizado, passa a viver uma momentânea “lua de mel” com seu posto de trabalho conquistado, mas a intensificação com jornadas extenuantes revela, na verdade, a precarização a que está submetido. Por isso, Antunes lança a provocação que dá título ao seu recente livro “O Privilégio da Servidão” como contraponto à miséria do desemprego.

No caso dos médicos, o período inicial com o vínculo empregatício por pessoa jurídica (PJ), que aparentava maiores ganhos instantâneos, já não tem mais o mesmo fator de encantamento dos profissionais que viram se tornar comum os calotes e que perceberam a estagnação do valor dos plantões frente à perda inflacionária. Os médicos sentiram também, por meio desses vínculos precários, a vulnerabilidade ao assédio dos empregadores, a insegurança com relação ao futuro e a ausência de garantias como licença-maternidade e remuneração em caso de adoecimento. Ao mesmo tempo, viram as possibilidades de emprego se fecharem nos vínculos CLT e os contratos estatutários terem sua remuneração praticamente congelada ao longo do tempo.

Se você é médico e quer lutar contra a “uberização” de seu trabalho e por melhores condições de trabalho e de remuneração, entre em contato com o sindicato e faça parte do embate coletivo que pode mudar esta realidade. Nunca foi tão necessário que estejamos juntos em diversas frentes. Só a nossa categoria unida pode fazer frente a esse processo de precarização!

Você pode contatar o Simesp pelo WhatsApp (11) 99111-5490, telefone (11) 3292-9147 ou por e-mail relacionamento@simesp.org.br.



COMPARTILHE ESTA NOTICIA


SIGA O SIMESP


CONTATOS

Assessoria de Imprensa

Nicolli Oliveira
(11) 3292-9147
nicolli@simesp.org.br


Redação

(11) 3292-9147
imprensa@simesp.org.br


NEWSLETTER

SIMESP - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS