O processo de terceirização do Hospital Municipal do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, tem avançado de forma escalonada — começando pelo pronto-socorro, passando pela UTI e, mais recentemente, alcançando diferentes setores da unidade. Segundo apurou o Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), o modelo implementado pela Prefeitura tem gerado conflitos entre equipes, denúncias de práticas antissindicais e preocupação com a qualidade da assistência prestada à população.
Relatos recebidos pelo Sindicato indicam que profissionais concursados passaram a atuar lado a lado com equipes contratadas pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina Programa de Atenção Integral à Saúde (SPDM), em um ambiente descrito como de tensão permanente.
Também foi denunciado que o diretor da unidade, José Carlos Ingrund, não tem garantido transparência na transição da gestão, gerando insegurança, sobretudo aos profissionais concursados do hospital. A direção realizou reunião, em meados de dezembro, para falar sobre a entrada da SPDM na gestão, mas somente pessoas alinhadas à terceirização foram convidadas. Quando entidades sindicais tentaram participar, foram expulsas com truculência do local. Ingrud também impediu que uma carta aberta aos usuários do equipamento fosse distribuída e que funcionários trabalhassem com uma camiseta em defesa do hospital.
A carta, datada de 12 de janeiro de 2026, alerta para riscos assistenciais, superlotação, falhas em protocolos e avanço da precarização. O documento reivindica a convocação imediata de aprovados em concurso público vigente da Autarquia Hospitalar Municipal e critica a ampliação dos contratos terceirizados enquanto há profissionais aguardando nomeação.
Em outra ocasião, questionada sobre a necessidade de as equipes concursadas ficarem subordinadas à OSs, a superintendente da Assistência Hospitalar da Secretaria Municipal de Saúde, Flávia Maria Porto Terzian, teria afirmado que esta era a nova regra e quem não estivesse satisfeito, deveria solicitar exoneração. Além disso, os salários entre os profissionais concursados e os contratados da SPDM são diferentes, o que amplia as desigualdades entre as equipes.
Para o secretário de relações sindicais e associativas do Simesp, Guilherme Barbosa, o cenário é preocupante. “O que estamos vendo no Hospital do Tatuapé é um processo conduzido sem transparência e sem diálogo com os trabalhadores e suas entidades representativas. Há um concurso público vigente, com profissionais aprovados aguardando convocação, enquanto a gestão opta por ampliar a terceirização. Isso precisa ser explicado à sociedade.”
Ele também criticou as denúncias de práticas antissindicais. “Impedir a distribuição de uma carta aberta à população ou tentar coibir manifestações pacíficas dentro da unidade são atitudes incompatíveis com a liberdade sindical e com o direito à organização dos trabalhadores. O debate sobre o futuro do hospital não pode ser feito a portas fechadas.”
O Simesp reafirma que acompanhará o caso e cobrará esclarecimentos públicos sobre o processo de terceirização, seus impactos nas condições de trabalho e na qualidade da assistência prestada à população usuária do SUS.