Simesp

SBH e o “Mais Médicos”

Home > SBH e o “Mais Médicos”
02/08/2013 | Notícia Simesp

SBH e o “Mais Médicos”

Henrique Sérgio Moraes Coelho, Presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia

Recentemente pressionado pelos clamores das ruas exigindo educação e saúde de melhor qualidade, o Governo baixou uma Medida Provisória que contém diversos pontos lesivos à classe médica.

Em primeiro lugar tenta jogar a população contra os médicos alegando que somente queremos trabalhar nas grandes cidades e deste modo justificar-se-ia a contratação de médicos estrangeiros inclusive dispensando-os de provas para revalidação do seu diploma no Brasil. Sabemos que um número muito pequeno destes médicos (a grande maioria de países com cursos médicos bem inferior ao nosso) fora aprovado na prova denominada Revalida e desta maneira em um passe de mágica sugeriu que três meses de reciclagem em um hospital universitário (os nossos estão em péssimo estado ) seria suficiente para coloca-los para atender no interior do nosso país. Sabe-se lá em que língua ocorreria o diálogo…

Esqueceram nossos governantes que não basta colocar um médico (nem que seja o melhor)com uma caneta e um papel na mão, em algumas áreas do país absolutamente carentes de postos de saúde, exames, medicamentos e outros profissionais da área da saúde.

Não será o salário oferecido que isoladamente fará com que médicos fixem residência em determinadas áreas do país sem que ocorra paralelamente a melhora dos atendimentos do SUS e das condições de vida local. Se nossos governantes não conseguem colocar sequer os hospitais universitários federais das grandes capitais para funcionar (com um número enorme de profissionais da saúde) como será a mágica no interior remoto do país?

Um outro aspecto bastante confuso é obrigar o médico recém formado (com registro provisório) a prestar serviço no SUS como ocorre com o Serviço Militar obrigatório, só que este com aprovação constitucional. Após este maravilhoso estágio certamente orientado no interior do país pelos médicos estrangeiros capacitados em reciclagens extemporâneas, sem Revalida, o médico parcialmente formado com 1/2 CRM voltaria “apto” a candidatar-se à residência. Não seria mais lógico que no 1º ano obrigatório de Clínica Médica ou Cirurgia geral ou Pediatria houvesse um estágio no SUS no seu próprio estado, onde existisse possibilidade de supervisão recebendo neste período uma gratificação especial ou que se estimulasse a criação de pólos de medicina de qualidade em áreas mais longínquas com salários diferenciados para os médicos e uma carreira com estímulos?

Não seria melhor convocar as autoridades universitárias, os conselhos (Federal e Regionais de medicina), a AMB, a ANRM para discutir alternativas de crescimento do SUS e a melhor utilização do dinheiro da Saúde, ao invés de tresloucadas invenções demagógicas que não vão produzir efeito a médio e longo prazo?

É evidente que o Brasil necessita de uma melhor distribuição de médicos pelos estados, mas junto com isto mais recursos para o SUS, menos desperdícios, menos demagogia, menos incentivos financeiro e fiscal à medicina privada.

Gandhi dizia que “os políticos estão acostumados a usar ao poder da força (em nosso caso das MPs) e desconhecem o poder das sementes. Não haverá parto se a semente não for plantada muito tempo antes… Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.”

Queremos um SUS melhor. Não bastam médicos. São necessárias longas e silenciosas metamorfoses.