O Debate “A Imprensa e os Médicos” realizado pelo Sindicato dos Médicos de São Paulo na última sexta-feira, 8 de março, teve seu objetivo mais que alcançado. Durante o evento, os médicos tiveram a oportunidade de aprofundar a discussão sobre a importância da imprensa na divulgação das lutas da categoria. Por meio da mídia, por exemplo, a sociedade foi informada sobre os abusos causados pelos convênios médicos que praticam preços altos e pagam salários injustos aos profissionais. Também pôde ler sobre o resultado do exame do Cremesp sob as diferentes óticas.
A discussão do tema foi idealizada pelos diretores do Simesp, Antonio Carlos da Cruz Júnior, secretário de Formação Sindical e Sindicalização, e do então secretário de Imprensa, João Paulo Cechinel Souza, após a publicação de um grande número de artigos e notícias sobre saúde na imprensa. “As políticas de saúde e os médicos têm sido, frequentemente, noticiados, sugerimos então debater com as fontes geradoras dessas notícias – jornalistas, médicos, poder público – as demandas, os gargalos e as possibilidades de melhorias da atenção à saúde”, explica Carlos Cruz.
O coordenador do departamento de Comunicação do Cremesp, João Ladislau Rosa, um dos palestrantes do evento, concorda e enfatiza: “a saúde não está só todos os dias nos jornais, o tema é abordado a toda hora”.
Logo na primeira mesa de debates a presença da jornalista da rádio Jovem Pan da editoria de saúde, Izilda Alves, instigou os médicos a comentar e questionar suas posições diante da imprensa. Izilda levantou a questão dos problemas com fontes oficiais das secretarias de Saúde municipais e estadual. “Está cada vez mais difícil o acesso a essas fontes. Não nos atendem, principalmente se estão sedo criticados”. Além disso, a jornalista comentou a dificuldade de encontrar médicos dispostos a dar entrevista. “O novo Código de Ética Médica engessa o médico”, pontuou.
Os médicos se defenderam afirmando que o Código de Ética apenas evita excessos. “O Código limita algumas médicos para evitar falas irresponsáveis, sem compromisso com a categoria, e propaganda sem limites. Queremos que a imprensa seja imparcial”, disse Renato Françoso Filho, do Conselho Federal de Medicina. Já o presidente do Simesp, Cid Carvalhaes, defende a preservação da intimidade do paciente acima de tudo. “Podemos cometer excesso de omissão, mas às vezes a imprensa devota muita ênfase em focos específicos, formando a opinião pública antes de informar”, ponderou.
O deputado estadual Marcos Martins, presidente da Comissão de Saúde da Alesp, falou sobre as pautas mais rentáveis aos veículos de comunicação. “Nem sempre o que dá mais Ibope é de interesse da população. Temos a necessidade de democratizar a comunicação, só o acesso não basta”.
Rodrigo Almeida Souza, presidente do Sindicato dos Médicos de Rondônia e secretário de Comunicação da Fenam, afirma que é preciso enfrentar a complexa relação médico-imprensa. “Temos bons e maus políticos, normalmente a imprensa só fala mal. Assim também acontece com juizes, policiais e com os médicos. Às vezes, as notícias são pontuais, mas temos que enfrentar”.
Como não podia faltar, os supostos erros médicos divulgados na mídia também estiveram na pauta do debate. Muitas vezes, o médico é previamente condenado, antes mesmo de ser julgado pela justiça. E quando é provada sua inocência, ele já está condenado pela sociedade, ficando praticamente impossibilitado de exercer a profissão.
Para Joselia Lima Nunes, segunda secretária do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, o médico deve ter postura ao falar com a imprensa. “Nosso Código de Ética Médica nos permite que sejamos o mais respeitável possível para com os nossos pacientes”, avalia. Ela chama a atenção para o fato de muitas vezes o médico não saber como se portar diante da imprensa. “Durante a nossa formação somos orientados apenas sobre a nossa área, estudando o corpo humano, mas não aprendemos a lidar com as entrevistas diante daqueles que, às vezes, querem prejudicar nossa imagem”.
Ademais, outro tema preocupante na relação médico-imprensa é a distorção da informação. De acordo com Miguel Srougi, professor titular de Urologia da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Conselho do Instituto Criança é Vida, há muitas vezes dificuldades por parte de jornalistas de interpretar pesquisas médicas. “Eles recebem pesquisas de baixa qualidade técnica e as repercutem, gerando expectativas irreais na população. O impacto humano de se propor uma técnica que talvez cure o câncer, por exemplo, cai como uma bomba. E isso vai causar uma devastação em uma imensidão de pessoas, sem falar nas repercussões econômicas que podem causar”, alertou. O professor destaca ainda que é preciso cautela na divulgação de tratamentos.
Para finalizar o debate, o presidente do Sindhosp, Yussif Ali Mere Júnior, apresentou uma análise sobre a forma como cada tipo de veículo trata a saúde e como o médico pode manter uma boa relação com jornalistas. “Temos que valorizar os jornalistas que se pautam por veículos especializados, além de manter a imprensa como nossa aliada na divulgação de informações que beneficiem a sociedade”, defendeu. Nesse aspecto, tanto os representantes das entidades médicas quanto a jornalista Izilda Alves consideram que ter uma Assessoria de Imprensa é uma forma de facilitar a troca de informações e manter um bom relacionamento entre as partes.