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Robert Downey Jr. fala sobre o novo Sherlock Holmes

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11/01/2012 | Notícia Simesp

Robert Downey Jr. fala sobre o novo Sherlock Holmes

O primeiro era melhor. “O primeiro filme é sempre melhor, quanto mais não seja porque é novidade”, explica Robert Downey Jr., que fez uma viagem relâmpago ao Brasil para o tapete vermelho de Sherlock Holmes – O Jogo de Sombras. O novo filme com o mestre da dedução criado pelo escritor Arthur Conan Doyle foi, como o anterior, dirigido pelo ex de Madonna, Guy Ritchie. Como a mocinha morre logo no começo, Sherlock forma dupla com seu eterno amigo, o Dr. Watson (interpretado por Jude Law).

O diretor Ritchie deveria ter acompanhado Downey Jr. Oficialmente, ele teve problemas de agenda, mas, na verdade, não tinha visto de entrada no País e não poderia tirá-lo em tempo hábil. Downey Jr. chegou no domingo à noite, passou a segunda-feira dando entrevistas à imprensa escrita e à noite percorreu o red carpet. Estava de ótimo humor, mas descartou o prazer. “Estou aqui a negócios, para promover O Jogo de Sombras.”

Embora tenha concordado que o primeiro filme “é sempre melhor”, ele logo muda o discurso. “A história de O Jogo de Sombras é melhor e mais complexa e Guy (Ritchie) se aprimorou na narrativa.” O repórter pede licença para discordar. Até um dos aspectos mais originais do primeiro – a antecipação das ações do herói, quando ele avalia o que vai fazer, é um recurso agora repetido à exaustão. Vira cacoete. “Você é a primeira pessoa que me diz isso”, ele assinala. O repórter concede – “Às vezes, as coisas não saem exatamente como planejadas.” É a vez dele retrucar – “Viu?”

Downey Jr. diz que, aos 46 anos, está muito bem. Reconhece que sua vida já foi um inferno, “mas ficou lá atrás”. Se hoje pratica exercícios, artes marciais, tudo a que tem direito para esculpir o físico, não é por vaidade. “Meu corpo é ferramenta de trabalho”, define. Embora seja protagonista de duas franquias de sucesso – Homem de Ferro, que vai para o terceiro filme, e Sherlock -, ele não acredita muito em super-heróis. Admira o alter ego do Homem de Ferro, justamente porque Tony Stark… tem defeitos. Seus heróis, ou seu herói, no singular, é um cineasta de vanguarda, Robert Downey Sr.

Robert tinha 5 anos quando estreou num filme dirigido pelo pai. Desde cedo, habituou-se a ver as pessoas se referirem a Downey Senior como “um gênio”. Mas os filmes dele, justamente por serem independentes e vanguardistas, sempre foram pouco vistos. Isso relativizou, para Jr., os conceitos de sucesso e fracasso. “Me ajudou muito nos momentos de baixa, e eu os tive, bastante”, resume. Ficam implícitos os problemas com drogas, que quase o destruíram.

Salvou-o a mulher, a produtora Susan Downey. Ela produz Sherlock Holmes – O Jogo de Sombras. A grande vantagem disso é a afirmação que Downey Jr. faz, ao ouvir uma história contada pelo repórter, que quer saber como ele se prepara para os papéis. Gary Oldman disse ao repórter que, quando jovem, adorava se preparar. Com o tempo, ficou preguiçoso e hoje prefere ouvir as indicações do diretor no set. “Ele diz que ouve o diretor? Que interessante. Eu prefiro diretores que me ouçam.” Muita coisa na construção do personagem – na roupa, nos gestos – nasce de sugestões dele. “Sou muito bom no que faço” – e você não sabe se o astro está brincando.

Foram dois encontros com Robert Downey Jr. em diferentes cenários – hotéis – da cidade chamada de maravilhosa. O primeiro foi na mesa-redonda com outros jornalistas, no Copacabana Palace. O segundo, a individual realizada no terraço no Hotel Fasano, com a vista deslumbrante do Arpoador. Por pouco que tenha ficado no Rio, Downey Jr. reconheceu: “É lindo”.

Como é estar em duas franquias de sucesso, Homem de Ferro e Sherlock Holmes?

É lisonjeiro, prova que sou bom e o público gosta de mim. Em Hollywood, todo mundo diz que você vale quanto seu último filme rendeu. Os números não mentem. Atualmente, valho bastante.

Mas você já teve problemas sérios…

Que ficaram lá atrás. Minha vida é pública, sempre foi. Tenho 46 anos e mais de 40 de carreira. Isso significa que, desde que me conheço por gente, tenho estado diante de uma câmera. O público me conhece, sabe do que sou capaz, mas também as bobagens que fiz. Não me orgulho delas, mas não teria amadurecido se a minha vida fosse um mar de rosas.

Você é filho de cineasta, Robert Downey Sr. Tenho de admitir que nunca vi um filme de seu pai. Como ele era?

Como pai, não estava sempre presente, mas quando isso ocorria era generoso e participativo. Como diretor, sua fama era de gênio de vanguarda, que tinha o que dizer sobre sua vida e arte. Só que, do ponto de vista da indústria, seus filmes não faziam muito sucesso. Isso terminou sendo muito importante para mim. Me levou a relativizar os conceitos de sucesso e fracasso numa cidade (Hollywood) que só acredita no primeiro.

Você vai ser pai. De novo.Como se sente?

Estou em forma, mais tranquilo, acho que serei um pai melhor, mesmo que, eventualmente, tenha de privilegiar a qualidade sobre a quantidade dos contatos com meu filho.

Vamos falar de Sherlock Holmes. Eu, particularmente, sou um leitor de Conan Doyle. E você?

Para nós, nunca foi questão de fazer uma adaptação fiel dos livros, embora todo o conflito entre Sherlock e seu arquirrival, Moriarty, seja muito próximo daquilo que foi escrito. A ideia era fazer uma graphic novel e adaptá-la para o cinema. Pense no Sherlock dos livros e dos filmes. Preto e branco, fleuma britânica, uma velharia. O que Guy (Ritchie) quis fazer foi outra coisa, e essa outra coisa foi o que atraiu o público no primeiro filme. Contamos que continue atraindo no 2, para que tenhamos o 3 e assim por diante.

Quando você fala em velharia está esquecendo de Billy Wilder, A Vida Íntima de Sherlock Holmes, não?

Ah, sim, Billy Wilder. Sob certos aspectos, ele desmistifica o herói, mas sua narrativa é gótica, privilegia o romance mais do que o mistério. Guy (Ritchie) é pós-hitchcockiano, prefere o suspense ao mistério.

Mas Wilder, ao desmistificar o personagem, põe a nu um dos segredos de polichinelo de Sherlock – o subtexto homossexual de sua ligação com Watson.

Mas nós não levamos isso a sério. Você acredita realmente que eles eram gays? Justamente porque não eram, Jude (Law) e eu ficamos livres para brincar com as sugestões. Se acreditássemos realmente nesse homossexualismo, teríamos sido mais prudentes, o que poderia tornar a narrativa mais solene. Tudo o que interrompe o casamento de Watson e o une a Sherlock funciona mais como piada, e o público é cúmplice.

Filmes como Homem de Ferro e Sherlock exigem muito de você do ponto de vista físico. Como se prepara?

Com vitaminas (risos). Não, pratico artes marciais, mas não sou o fisiculturista típico. E a gente aprende. No primeiro filme, minha luta com o gigante foi muito violenta. E, mesmo com cuidados, ele me deu um soco que quase rebentou a minha cara. Em filmes baseados na fisicalidade, é sempre um risco, mas eu tenho a impressão de que, no 2, Sherlock é mais o mestre da dedução do que um lutador. E eu gosto disso.

Vamos mudar um pouco de assunto. Você vê muitos filmes? É cinéfilo?

Adoro ver filmes. O melhor filme em língua inglesa que vi recentemente foi Minha Semana com Marilyn, com Michelle Williams e Kenneth Branagh. Os dois estão bem e poderão ir para o Oscar. Mas o melhor filme que vi, acho que nos últimos cinco anos, foi A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar, porque ele fala de perda e insanidade como eu nunca vi. É preciso ser mestre para se equilibrar assim no fio da navalha e arrastar a gente a emoções tão intensas.

Você também já expressou a loucura na tela. Não gosto particularmente de Premonição, de Neil Jordan, mas gosto de você no filme.

Obrigado, foi um dos meus papéis mais difíceis. O problema de fazer um louco é que você pode errar no tom, e a coisa vira um desastre.

Com um super-herói não existe esse risco? Afinal, Batman e o Coringa são as duas faces da mesma moeda, dois loucos?

Entendo seu ponto de vista, mas não há comparação possível. Você pode até errar a mão num super-herói e, ainda assim, o público terá confiança nele. Já o louco corre o risco de se tornar excessivo e insuportável.

Você tem planos de dirigir?

Pode ser influência do meu pai, mas, sim, ainda pretendo dirigir um filme. Não sei se conseguiria ser um gênio como ele. Nunca saberei, se não tentar. O problema é que, como ator, posso sair de um projeto e entrar em outro. Como diretor, vou ter de trabalhar dois ou três anos da minha vida numa só coisa. O que ainda me falta é encontrar a história certa.