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Receita de Médico

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04/03/2011 | Notícia Simesp

Receita de Médico

Toma-se um filho grandinho, chamando papai e mamãe e bota ele num maternal, que pede pra gente comprar cartolinas, tintas, pincéis, hidrocor e papel Chamex (parece que o menino vai aprender datilografia).

Depois que o menino deixa de ser analfabeto, coloca ele num colégio. Mensalidades são mais caras, fardas, cadernos e livros, além do dinheiro do lanche. Tudo custa os olhos da cara, mas você fica satisfeito, pois o menino decidiu ser médico.

No vestibular a coisa vira um pandemônio. Tem de botar o menino num cursinho. E continua o compra-compra: caderno de mola, de seis, de dez e até de 12 matérias! Livros, apostilas, módulos e sumários. É um Deus-nos-acuda. Mas, sonhando com o filho médico, você vai trabalhando, suando e pagando.
Pois bem… O danado do menino passa no vestibular de medicina, você fica abestalhado, abraça-o com a voz embargada, chama os amigos, faz um churrasco, toma uma carraspana e termina chorando mesmo.

Começa a Universidade, a Federal, que ainda é gratuita. Continua o dinheiro do lanche e do transporte. Tudo caro! E os livros?! Mas o menino se arruma com xerox.

Um dia, o último esforço: os pais vão a uma joalheira e escolhem um anel com uma esmeralda. Modesta, mas a que eles podem pagar em seis vezes.

E chega a hora… Pai de terno e gravata, mãe de vestido de noite e lágrimas nos olhos, ouvem o reitor dizer que o menino que eles fizeram sem receita, há 23 anos, a partir de agora é médico.

E o médico deixa de ser menino, mas nunca vai deixar de estudar e comprar livros. Precisa arranjar um emprego, ou melhor, dois. O governo federal paga oito salários mínimos, mas não há concurso. O Estado paga três salários/base e a Prefeitura quatro. Com padrinhos e nomeado para prestar serviços, fica com sete salários. Vai ter que arranjar um PSF…

A essa altura o pai descobre que motorista do TRT ganha R$ 4 mil. Com uma receita de motorista, teria sido mais fácil…

Descobre mais: médico é pra chegar e sair dos dois empregos na hora certa e não deve fazer greve. Que não dorme bem: sai do plantão às 6h50 e entra no outro emprego às 7h. Que tem de ter carro; de ônibus não chega a tempo ao hospital. Não almoça direito, pois opera na hora do almoço. Não tem hora pra comer, dormir, nem conversar com os filhos. E mulher de médico enche o saco mais rápido, pois ela é motorista e office-boy: paga água, luz, promissórias, leva os filhos ao colégio, inglês ou natação.

A medicina não é ciência exata. Sem comer nem dormir direito, correndo entre os empregos e o hospital, cansado e ganhando mal, longe da mulher e dos filhos, dando plantão sábado ou domingo, o ser humano médico erra. Aí vão ver o médico na televisão, mostrado como mau profissional.

Mesmo assim, graças a Deus, ainda há pai apelando pra menino escolher receita de médico.