Texto: Adriana Cardoso
O infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) Ricardo Vasconcelos, 37 anos, é um dos médicos pesquisadores participantes da PrEP Brasil, projeto que segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para oferecer tratamento preventivo à população mais vulnerável à infecção por HIV. O Ministério da Saúde já anunciou que pretende incorporá-lo ao Sistema Único de Saúde (SUS) até o fim do ano
Como funciona a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e que tipo de público pretende atingir?
A PrEP se insere na categoria de prevenções biomédicas com o uso de antirretrovirais em pessoas que não têm HIV, mas que são altamente vulneráveis a ele, para que tenham diminuídas as chances de se infectarem. Na PrEP, o paciente toma diariamente um comprimido de um medicamento comercialmente conhecido como Truvada, que tem dois antirretrovirais conjuntos, o tenofovir e a emtricitabina, que reduzem bastante as chances de infecção. O tratamento é voltado a todos aqueles que não conseguem usar preservativo de forma consistente, como profissionais do sexo, casais sorodiscordantes (quando um tem HIV e o outro não), enfim, todos aqueles em risco que, por razões distintas, não se previnem com os métodos tradicionais.
Como foi realizada a pesquisa e como foi demonstrada a sua eficácia?
Os primeiros estudos publicados conseguiram demonstrar que o uso do Truvada era uma estratégia eficaz de prevenção contra o HIV. O iPrEX (Quimioprofilaxia para Prevenção do HIV em Homens ou Iniciativa PrEP) foi publicado em 2012 e, a partir daí, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que todos os países do mundo que ainda tinham epidemia descontrolada, como o Brasil, avaliassem usar a PrEP em seus sistemas de saúde para os grupos de maior vulnerabilidade. Em 2013, o Ministério da Saúde pediu à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, e à USP e ao CRT (Centro de Referência e Treinamento DST/Aids), aqui em São Paulo, que organizassem um piloto do PrEP. A partir de 2014, nós, então, começamos a dar Truvada para um grupo de 500 voluntários (a partir de 18 anos), entre São Paulo e Rio, que tinham alta vulnerabilidade ao HIV, como pessoas que faziam sexo desprotegido ou que tinham histórico de DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis). Queríamos avaliar qual seria a aceitação de uma estratégia como essa (PrEP); a adesão ao tratamento; o impacto da medicação no uso de preservativo, ou seja, se eu der Truvada, as pessoas vão abandonar de vez a camisinha?; e os efeitos colaterais. Por dois anos (de 2014 a 2016), esses voluntários receberam o medicamento e a conclusão da PrEP Brasil foi que o tratamento é seguro, ou seja, não houve efeito colateral grave; eficaz, uma vez que quem tomou Truvada não se infectou; e a aceitação foi enorme. Em resumo, concluímos que o tratamento funciona, pois as pessoas aderem e se protegem.
Qual o caminho agora até que esse tratamento chegue ao SUS?
Baseado nesse resultado, o Ministério da Saúde se posicionou favoravelmente à incorporação do tratamento na rede pública até o fim do ano (o anúncio foi feito durante uma apresentação da diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do ministério, Adele Benzaken, na Conferência Internacional de Aids, em Durban, na África do Sul, em 18 de julho). Falta encaminhar a parte burocrática do processo, como o custo-efetividade do tratamento e a organização dos serviços para atender a essa demanda.
A rede pública já oferece, desde 2010, a PEP (Profilaxia Pós-Exposição). Como funciona o tratamento nesse sistema?
A PEP (Prolilaxia Pós-Exposição) permite que uma pessoa exposta ao vírus faça um tratamento durante 28 dias após exposição. É voltado basicamente a vítimas de violência sexual ou de acidentes ocupacionais, como profissionais da saúde que se machucam com agulha com resíduos de sangue infectado, ou até mesmo quem teve relação sexual consentida se expondo ao risco. A busca por esse tratamento deve ser em até 72 horas após a exposição (quanto antes melhor), e o tratamento é mais completo – são três antirretrovirais dados por aquele período. Se a pessoa toma direitinho, a redução do risco da infecção é de até 99%.
Existe limite de idade ou algum outro fator impeditivo da PrEP?
Todos os trabalhos que foram feitos até agora tiveram como voluntárias pessoas com mais de 18 anos. Mas isso não significa que os menores de 18 (a partir de 2 anos) não possam usá-lo. Existem fatores limitantes como a questão da função renal. Um dos medicamentos usados na PrEP tem como possível efeito colateral insuficiência renal, então, quem tem rim alterado tem contraindicação. Mas idade não é restrição.
Pesquisas mostram que a epidemia de Aids vem crescendo em todo mundo, especialmente entre jovens de 15 a 24 anos. O fato de existirem tratamentos não faz com que as pessoas relaxem na prevenção?
No Brasil e no mundo a epidemia de Aids está longe de ser controlada. Todos os anos, o número de novos casos ainda é muito grande. Em 2014, mais de 2 milhões de pessoas contraíram o vírus. O que melhorou nesses anos foi o tratamento às pessoas infectadas, evitando que morram. Se ela tomar o remédio, vive direitinho. Mas a prevenção ainda é desfalcada. No Brasil, nos últimos 10 anos, cerca de 40 mil pessoas foram infectadas a cada ano e esse número não está diminuindo, o que reforça a ideia de que a prevenção pelo uso da camisinha e a escolha de parceiros ainda é falha. Recentemente, verificamos que há uma infecção maior entre os jovens que, aliás, é um grupo de extremo interesse quando pensamos em PrEP, pois o uso de preservativo, para eles, está se mostrando extremamente ineficaz. Quando os jovens recebem o diagnóstico de HIV, percebemos que não ficam desesperados, pois não há entre eles aquele fantasma que o vírus representou na década de 1980. Acho que tem um pouco disso mesmo (a existência de tratamento para a doença).
Mas a existência desses tratamentos não significa que os métodos tradicionais devem ser abandonados, não é mesmo?
De jeito nenhum! Na PrEP Brasil a gente dá camisinha aos voluntários, pois esse ainda é o melhor método contra as DSTs em geral. Quando falamos em PrEP, estamos falando em redução de danos. O ideal é que todo mundo use camisinha do começo ao fim em todas as suas relações. Isso é possível atingir? Não. Sempre vai haver gente que não vai usar o preservativo direito. É importante frisar que a PrEP só previne contra o HIV e não as demais DSTs. A ideia de usar o Truvada para parar de usar camisinha é extremamente errada. O racicíonio certo seria: “Já que não consigo me proteger só com a camisinha, devo usar a PrEP para me manter soronegativo para o HIV”.