Em decisão unânime, na noite de 19 de março, médicos decidiram aderir à greve dos servidores da Prefeitura de São Paulo. Os médicos exigem o arquivamento imediato do projeto de lei do prefeito João Doria que aumenta a contribuição previdenciária dos servidores de 11% para até 19%. Importantes sindicatos de trabalhadores do município já estão em greve, desde o dia 8 de março, pelo mesmo motivo.
O Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) já informou o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, da decisão que reuniu, em assembleia, médicos de diversos serviços e de todas as regiões da capital paulista. O Simesp também irá fornecer orientações aos médicos sobre como proceder durante o período de greve.
Juane Chan, do Laboratório de Especialidades da Mooca, na zona leste, perguntou, no início, se médicos não sindicalizados poderiam participar do movimento, se estariam respaldados pela decisão da assembleia? Sim. Mesmo não sendo associado, o médico pode aderir. Pois se trata de um direito constitucional. Respondeu um dos advogados do Simesp.
Sob aplausos, após a decisão unânime, foi formado um Comando de Greve reunindo diretores do sindicato e médicos da assembleia que se dispuseram a participar. A ideia é que esse grupo preste apoio, oriente e mobilize os médicos dos serviços de saúde do município. “A população não está sabendo direito o que está acontecendo”, avaliou Chan. “Não é só entrar em greve, mas a população entender a razão da greve”, acrescentou.
“É um absurdo o que está acontecendo. O déficit do IPREM [Instituto de Previdência Municipal de São Paulo], da época do Maluf, já foi pago quando o Serra subiu de 7% pra 11%”, disse Antonio Palma Seman sobre a época em que a alíquota previdenciária foi reajustada para o nível atual, de acordo com lei de 2005. “Eu sou totalmente favorável a greve”, acrescentou o geriatra.
Seman, que trabalha na Unidade Básica de Saúde (UBS) Joaquim Antônio Eirado, em Santana, na zona norte, lembrou que os servidores são apresentados, muitas vezes, como detentores de privilégios. “Eu entrei em 1999 no serviço público e se eu for exonerado ou pedir demissão hoje, não vou ter verba rescisória, FGTS, nenhum direito celetista e isso a população em geral não sabe. É isso o que eles estão escondendo”, criticou.
Para o infectologista Samuel Soares, do Serviço de Assistência Especializada (SAE) Campos Elíseos, na região central, a ideia de Doria e seus aliados é entregar a previdência pública nas mãos da iniciativa de privada, independente se isso seria algo bom ou ruim para os servidores que contribuem para a manutenção do regime previdenciário da cidade. “Essa é a ideia”, resumiu. “E isso é no Brasil todo”, lembrou aos presentes.
“Essa briga é muito maior. É contra um processo de privatização muito maior. E não apenas no nível municipal”, concordou Mário Cabral, do Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo. Além disso, ele avalia que a medida coloca em risco a aposentadoria dos servidores municipais. Em 1º de março, ele e outros médicos decidiram participar do dia de paralisação geral ocorrido em 8 de março.
A médica endoscopista Marisa Setin, do Hospital Dia Flávio Giannotti, no Ipiranga, zona sul, disse que já existe uma grande mobilização dos trabalhadores dessa unidade, mas que a participação dos médicos ainda é baixa. Contudo, ela acredita que isso possa mudar com a decisão de 19 de março. “Falta conversa, falta mobilizar para que os colegas colaborem com a greve”, disse. Eder Gatti, presidente do Simesp, concordou. “A gente precisa do protagonismo dos médicos nesse momento”, defendeu. “O impacto político da nossa adesão é muito grande”, avaliou Gerson Salvador, secretário de comunicação do sindicato.
Mário Cabral, um dos integrantes do Comando de Greve, pediu que o grupo criado na noite de 19 de março tenha uma interlocução com os comandos já criados desde a eclosão do movimento (há comandos locais, que geralmente abarcam um único serviço de saúde, e regionais, que abrangem áreas maiores da cidade com 1.530 quilômetros quadrados de extensão). Cabral, aliás, já está integrado ao Comando de Greve Noroeste. “Existe uma concordância com o movimento, mas há, no momento, uma dificuldade de organizar”, considera.
Outro integrante do recém-criado comando de greve, José Erivalder, secretário de relações do trabalho do Simesp, concordou e pediu: “Que este comando tenha uma interface com o comando geral da greve, organizado por um conjunto de entidades do setor público do municipal.”
“Nós estamos trabalhando conjuntamente, não é uma greve apenas dos médicos”, lembrou. “Não fazemos nada sozinho, estamos fazendo em conjunto e é por isso que está dando certo”, avaliou José Erivalder, que já presidiu o Simesp entre 1996 e 2005.