No Egito, existem apenas registros em paredes de alguns templos. No templo de Kom Ombo, 40km ao norte de Aswan, os hieróglifos nas paredes descrevem atividades médicas e ilustram alguns equipamentos, inclusive um fórceps.
Alguns fatos merecem destaque: em primeiro lugar, a preservação do material humano (múmias) e textos (papiros e inscrições nas paredes, por exemplo). Em todas as civilizações antigas, o corpo humano era muito sagrado. “Havia muita preocupação em manusear o corpo. Os egípcios, por questão religiosa, tinham como norma preservar o corpo, a fim de a pessoa poder passar para o ‘outro mundo’, ou ‘o outro lado’, chamado Duat. Com isso, desenvolveram as técnicas de mumificação. E, ao mumificar, manuseavam os cadáveres”, lembra o engenheiro.
A partir dessa prática, adquiriram conhecimentos sobre a anatomia não comparáveis aos de outras civilizações. E isso 2 a 3 mil anos antes de Cristo. “Acreditavam que no Duat as condições de vida seriam exatamente as mesmas do mundo do lado de cá, e era importante estar preparado para a passagem entre os dois mundos”.
Traumatologia e infectologia
Em algumas áreas, o conhecimento era intenso, esclarece o egiptólogo Marcos Geribello: “Por exemplo, na traumatologia, pois havia causa e efeito: uma facada provocava determinado estrago, era um resultado ‘objetivo’, digamos assim. Na infectologia, entretanto, tudo era diferente. De onde vinham as infecções? Principalmente aquelas cuja causa não era traumática, como uma simples gripe. Aí havia os componentes divinos, misteriosos, místicos, aos quais recorriam quando não existia explicação lógica. Um deus ou determinado sacerdote teriam o poder dessa cura”.
O oculto
O isolamento histórico e geográfico dos antigos egípcios, a perda do conhecimento da linguagem e a magnitude de seus monumentos encorajaram a crença de que eram depositários de todo o conhecimento, especialmente o oculto. “Tentativas para revelar esses segredos têm sido feitas com imenso entusiasmo. No campo da medicina, muita imaginação e suposições exageradas derivam da interpretação dos papiros médicos. Essas especulações tendem a receber grande publicidade e confundem enormemente o cenário. Na verdade, não há necessidade de exagerar as aptidões médicas dos egípcios antigos. O que faziam três milênios antes da era cristã era extraordinário, e está de acordo com o desenvolvimento em muitos outros campos do conhecimento humano. Não podemos nos esquecer que para o entendimento desse assunto é preciso haver conhecimentos multidisciplinares. Médicos, biologistas, farmacologistas, dentistas, historiadores médicos e egiptólogos, entre outros”.
Sistemas nervoso e circulatório
Não há evidências que tenham associado o cérebro ao pensamento ou controle do corpo. “Nos embalsamamentos o cérebro era retirado pelas fossas nasais e descartado, evidência inequívoca de que desconheciam suas funções.” As emoções estavam relacionadas ao ib, o coração. Só após Hipócrates houve indicações sobre as verdadeiras funções do cérebro. Em relação ao sistema circulatório, o período faraônico inteiro estava a 2 mil anos da descoberta do sistema circulatório sanguíneo por Harvey, no século 17. Acreditavam que as artérias continham ar, e o conceito do sistema circulatório era desconhecido. Mas conheciam o batimento cardíaco e a pulsação, que acreditavam ser resultado do ar que ali circulava.
Sistemas respiratório e digestivo
Segundo o egiptólogo, eles sabiam da importância da respiração para a vida. “Mas o que acontecia com o ar que entrava pelo nariz era pouco claro. Fora dos papiros médicos há constante referência ao ‘sopro da vida’ (tjaw n ankh), recebido pelos reis dos deuses. O Livro do Estômago, do papiro Eber, aceita que a comida e a bebida passavam pelo estômago e seus resíduos desciam até o ânus. Esse processo poderia sofrer vários problemas, mas não entendiam como se davam a digestão e absorção de alimentos”.
Sistema reprodutivo
Nos estudos que vem fazendo ao longo de muitos anos, entremeados por diversas viagens ao Egito, Marcos Geribello não tem dúvida de que os princípios da reprodução eram claramente entendidos, inclusive a ligação entre relação sexual e reprodução. “O útero, chamado de mut remety, a mãe da humanidade, era conhecido simplesmente como campo fértil no qual era depositada a semente do homem, sem o reconhecimento da contribuição genética da mulher”.
Drogas
A extensa farmacopeia continha itens de origem mineral, animal e vegetal, receitados por volume e não por peso. A maioria das drogas das duas primeiras categorias era indicada fora dos papiros médicos. “Cerca de 160 produtos vegetais eram usados, mas só 20% podem ser identificados com certeza. Muitas drogas de origem vegetal, provadas com eficiência terapêutica, são usadas até hoje. Mel, leite e fígado de animais compunham o receituário”, assinala Marcos Geribello, que acrescenta, como “curiosidades” dentro da farmacopeia, excrementos de muitas espécies, incluindo gatos, asnos, pássaros, raposas, crocodilos, mosquitos e homem. “Felizmente para uso externo”, tranquiliza.
Olhos
Os olhos fazem parte importante da mitologia do Egito. O olho de Horus foi arrancado por seu tio Seth e restaurado magicamente por Thoth, deus da sabedoria dos escribas e médicos. O Wedjat, olho restaurado e saudável de Horus, tornou-se potente símbolo de proteção e cura. É objeto de inúmeros amuletos, e seus componentes são usados para definir as frações usadas nas prescrições de remédios. Os médicos egípcios eram renomados por suas habilidades no tratamento dos olhos. Heródoto escreveu que Ciro, rei da Pérsia, pediu ao faraó Amasis para lhe enviar um oftalmologista. Os traumas oftálmicos eram causados, no baixo Nilo, principalmente por insetos; no alto Nilo, areia e ventos eram os maiores problemas.
Os dentes
Finalmente, muitos crânios sobreviveram para dar a clara ideia da saúde dental no Egito, do período pré-dinástico ao período romano. A alimentação básica da civilização egípcia se constituía de farinha de cereais, que continha areia trazida pelo vento que, por ser abrasiva, corroía o esmalte, provocando infecções. Explica o egiptólogo Marcos Geribello: “O cuidado com os dentes merecia grande atenção, e os dentistas eram designados ibhy, entre os quais alguns também eram swnw. Pode-se observar, por exemplo, no raio-x da múmia de Ramssés II, que ele deve ter sofrido longamente. E possivelmente morreu, quando tinha mais de 85 anos, de septicemia provocada por abscesso dentário”.