Simesp

Paulo Roberto Pires usa autor catalão em livro com histórias interrompidas

Home > Paulo Roberto Pires usa autor catalão em livro com histórias interrompidas
27/06/2011 | Notícia Simesp

Paulo Roberto Pires usa autor catalão em livro com histórias interrompidas

Nos anos seguintes à publicação de seu romance de estreia, "Do amor ausente" (Rocco, 2000), o jornalista e editor Paulo Roberto Pires acumulou anotações para um segundo livro que insistia em não se materializar. Onze anos depois, os inúmeros projetos abandonados nesse período ganharam sua redenção em "Se um de nós dois morrer" (Alfaguara), que será lançado hoje, na Argumento do Leblon, às 19h. Protagonizado por Théo, autor de um livro só que, ao se matar, deixa para a ex-mulher uma pasta com os textos inacabados de sua vida, o novo livro de Pires, longe de se render às inclinações fúnebres sugeridas no título, é uma celebração debochada do fracasso inerente ao trabalho de todo escritor.

– O livro acabou sendo uma história paradoxal dos fracassos desse escritor, que são um pouco os meus também. Acho que foi o Valéry quem disse que mais importante do que as coisas que um escritor escreve são as que ele não escreve. Isso é parte constitutiva do trabalho, quem escreve fracassa. Mas eu quis falar do fracasso engraçado, aquele do Beckett, que disse que devemos sempre tentar "fracassar melhor" – diz Pires em entrevista na sede do Instituto Moreira Salles, onde edita a revista de ensaios "serrote".

Os pequenos fracassos de Théo ocupam boa parte das pouco mais de cem páginas de "Se um de nós dois morrer" ("livro grande é uma falta de educação com o leitor", brinca Pires). O romance começa com a cremação do protagonista, num melancólico fim de carnaval carioca, assistida por poucos amigos e Sofia, a mulher com quem passou dez anos entre separações e reaproximações. Depois da cerimônia, ela começa a receber mensagens deixadas por Théo com instruções sobre o que fazer com os vestígios que ele deixou: suas cinzas e seus textos.

As cinzas devem ser levadas para Paris e salpicadas sobre túmulos ilustres do cemitério de Montparnasse, endereço definitivo de Sartre, Simone de Beauvoir, Beckett, Cortázar e outros autores a quem Théo deseja se juntar, numa última tentativa de misturar sua vida à literatura. Os textos devem ser entregues à única pessoa que Théo acredita ser capaz de compreender as obsessões de um escritor que não consegue escrever: Enrique Vila-Matas.

Além de virar personagem, o autor catalão é homenageado na seção central, que explora o conteúdo da pasta de Théo: cartas escritas numa clínica de desintoxicação para escritores que querem largar a literatura; uma lista de instruções para os futuros praticantes de uma nova forma de arte (a de abandonar livros em locais públicos); um catálogo de projetos abortados; uma pilha de "estatísticas & fatos" da inglória vida literária ("Dos sete escritores americanos ganhadores do Nobel, cinco eram alcoólatras")…

Apaixonado pela obra de Vila-Matas, Pires conta que foi a leitura de "Bartleby & cia", dicionário meio biográfico e meio fictício de escritores que abandonam a literatura, que lhe apontou um caminho no labirinto de rascunhos em que se viu metido após o primeiro livro.

– Além dessa coisa engraçada da recusa a escrever, o "Bartleby" tem uma forma muito interessante, que está na obra do Vila-Matas toda, uma tentativa de apagar as fronteiras entre autobiografia e ficção, ficção e ensaio – diz Pires, lembrando que, numa confirmação irônica desse apagamento de fronteiras, chegou a esbarrar com o próprio Vila-Matas enquanto escrevia o livro, no Hotel de Suède, em Paris, cenário de um dos romances do catalão.

Coincidência em outro livro

Essa foi apenas uma das muitas coincidências envolvendo "Se um de nós dois morrer". Os bastidores do livro dariam outro livro, que teria que incluir sua participação, no auge do bloqueio criativo, na série de encontros com autores organizada pelo grupo de psicanalistas Letra Freudiana, no qual falou sobre sua dificuldade de escrever. Em mais uma coincidência, aquela palestra, que Pires diz ter sido fundamental para destravar o segundo romance ("realizei o sonho do Otto Lara Resende, que dizia que só faria análise se fosse em grupo – um grupo de analistas e ele"), está sendo publicada agora também, em livro organizado pelo grupo.

– O mais divertido é isso: tudo acaba em livro.