por Alexandre Linares, dirigente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo para a CUT-SP
Enquanto milhões de trabalhadores brasileiros seguem submetidos à exaustiva jornada 6×1 (seis dias de trabalho por apenas um dia de descanso, quase sempre no meio da semana), o Congresso Nacional mais uma vez demonstra, com clareza cristalina, de que lado está: não do povo, mas do capital. Mesmo diante de um relatório técnico que propunha avanços concretos, como a proibição de redução salarial em razão da diminuição da jornada e metas graduais para chegar às 36 horas semanais em uma década, parlamentares preferiram protelar, negociar e, em última instância, sabotar.
O projeto original, embora modesto, reconhecia um princípio elementar: o trabalho digno não pode depender da generosidade patronal. A subcomissão chegou a propor uma compensação tributária às empresas com maior peso da folha salarial em seus custos. Mas nem com essas concessões setores do próprio Congresso aceitaram avançar, e travaram a votação. Parlamentares pediram “vista” e adiaram o avanço da proposta.
O deputado federal Vicentinho (PT-SP), denunciando a proposta de subsídios às empresas para acabarem com a jornada 6X1 explicou: “eu sei que o argumento dos empresários é sempre muito forte, mas várias empresas no Brasil já trabalham 40 horas semanais, incluindo várias médias e pequenas. E elas não quebraram com isso, mas sim ganharam produtividade. Na América Latina e nos países avançados, já se trabalha ou 40 horas semanais ou 36 horas, vide o caso de várias categorias na Alemanha e na França. Empresa não vai quebrar por causa disso” (UOL, 3.12.2025). O verdadeiro obstáculo não é técnico ou econômico. É político. O Congresso é palco dos interesses da classe dominante: empresários, latifundiários e especuladores. Para eles, qualquer avanço na melhoria da vida do povo deve ser barrado.
O argumento empresarial, sempre reciclado como se fosse novidade, alega riscos à produtividade e à competitividade. Mas a realidade desmente isso. Na América Latina e na Europa, países avançaram décadas: jornadas mais curtas, mais descanso, mais vida. E o que se vê? Maior produtividade, menor absenteísmo, menos acidentes e mais saúde mental.
O Brasil, porém, insiste em manter seus trabalhadores presos a um modelo arcaico, exaustivo e cruel, que beneficia apenas quem lucra com a super exploração.
Neste momento, a categoria dos jornalistas profissionais de rádio e TV de São Paulo está em campanha salarial e discute a renovação da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). Os patrões apresentaram uma contraproposta desrespeitosa: apenas a inflação e um aumento de 4 reais nos pisos salariais, isso quando muitas empresas obtêm lucros volumosos. Mais absurdo ainda é a recusa em discutir a escala 12×2 nas redações. No jornalismo de rádio e TV, essa condição é pior que a jornada 6×1: em algumas empresas, trabalhadores são obrigados a cumprir 12 dias seguidos para ter dois de folga com a família. E o segmento é o com maior fatia do mercado publicitário das empresas do setor de jornalismo nacional.
A categoria está se mobilizando para ir além disso: pela valorização salarial, pelo fim dessa escala absurda e por outras reivindicações, como o combate ao desvio de função e o fim do desconto do vale-refeição em dias de falta por atestado médico ou licença-paternidade.
A luta por mais tempo para viver se dá em cada campanha salarial, buscando incluir nas CCTs o fim dessas escalas desumanas, e também na luta política na sociedade. Sindicatos, movimentos populares e partidos comprometidos com o povo devem se unir para enfrentar os bloqueios desse Congresso inimigo do povo. Enquanto adiam o fim da escala 6×1, os parlamentares revelam que, para eles, o descanso dos trabalhadores é secundário diante dos interesses do mercado.
Essa luta exige superar a fragmentação e construir unidade. Exige mobilização popular, pressão nas ruas e denúncia permanente contra uma instituição que, cada vez mais, governa contra os que trabalham.
O povo merece mais que promessas adiadas. Merece 36 horas semanais. Merece descanso. Merece respeito. Merece o direito de ter vida além do trabalho.