13/10/2010 | Notícia Simesp

O artista que ilustra a história do Brasil


Faltava um livro que reunisse tudo o que fez (tudo?! como se isso fosse possível…) esse extraordinário artista brasileiro. Elifas Andreato retratou, em tons de alegria, dor, luta pela justiça e contra o arbítrio, as últimas décadas da nossa história. Personagens que acompanharam essa trajetória, como o presidente Lula, narram as intersecções com o seu trabalho

Em excelente hora, portanto, a J.J.Carol lançou “Elifas Andreato”, livro amplamente ilustrado (não poderia ser diferente), no qual está reproduzida a coleção de cartazes, capas de disco, capas de jornais alternativos (Movimento, Opinião e Argumento, por exemplo) e mais e mais e mais que saíram das mãos de Elifas. Dividido por “veredas de criação”, há depoimentos contundentes que acompanham a reprodução dos trabalhos: atestam a beleza e a importância do trabalho, apenas para citar três deles, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, o cardeal-emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, e Antonio Candido (escritor e sociólogo).
Elifas fala de sua vida: “O artista sempre escolhe o que faz da sua arte. Ele decide a quem empresta seu talento, como usa os recursos incorporados ao trabalho pelo estudo e pela observação. Há os que se desculpam pelos rumos tomados e os justificam pela pressão da sobrevivência. Outros se rendem sem dar satisfação, como se a função do artista fosse servir, não importa a quem”.
Olhando em torno de si, observando e constatando os múltiplos meandros pelos quais caminhou a sua arte, o reconhecimento de outros artistas, das crianças, que mais poderia querer da vida um sujeito simples, que fez do papel seu confidente, seu confessor, sua virtude e seu destino? Estas impressões, recheadas e enriquecidas pelos tantos amigos queridos que decidiram compartilhá-las, são a arte final de muitos rascunhos que a vida me fez fazer. Elas são o meu papel neste mundo”.

Cartaz apreendido

Pelas ilustrações desta matéria tem-se ideia do que representou e representa sua arte. Uma das mais expressivas e significativas obras-primas é o cartaz feito para a peça “Mortos sem sepultura”, de Jean-Paul Sartre. A ambientação, lembra Fernando Morais, que assina a apresentação, “era a França de Vichy, mas para nós, que tentávamos romper a treva da ditadura militar, não havia dúvidas: Elifas tinha pintado o retrato do Brasil”.
O cartaz foi apreendido pela Polícia Federal, no Teatro Maria Della Costa, em 1977. Alegou-se, à época, que o pau de arara nada tinha a ver com os nazistas. O pau de arara, na verdade, foi uma “criação” dos torturadores brasileiros. Mas a apreensão fez com que o cartaz fosse conhecido e reconhecido internacionalmente, sendo mais uma frente de luta contra o arbítrio que aqui havia se instalado.

Paulinho da Viola

Outro grande momento da arte de Elifas está ligado ao cantor e compositor Paulinho da Viola. Na verdade, foram algumas belas capas de disco, que renderam de Paulinho um emocionado testemunho: “Não se sabe, na história da música popular brasileira, de um artista gráfico que tenha assumido um compromisso tão grande apenas com o objetivo de enaltecê-la, através de seus desenhos e pinturas. Tudo isso de um modo tão digno, tão carregado de amor e emoção, e com um sentido crítico humano tão grande”.
Há obras-primas na produção de capas para os discos do Paulinho da Viola. Sem dúvida, uma das mais belas é a capa do LP Nervos de Aço (veja a imagem nesta matéria). O compositor segura um buquê de flores do campo, e lágrimas caem de seus olhos, que miram o céu. A beleza da camisa azul e a imagem da lua compõem um quadro de inenarrável emoção. O próprio Elifas relata o que o inspirou: “A capa para o LP Nervos de Aço causou muita polêmica. Expunha publicamente a separação de Paulinho da Viola e Isa, sua primeira mulher”.
Há outro momento fundamental na relação Elifas/Paulinho da Viola. Convidado a fazer a capa de um disco, em 1978, Elifas soube que o compositor estava construindo um cavaquinho fazia muitos anos. Elifas conta: “Para surpreendê-lo, procurei uma pequena fábrica de instrumentos, em São Paulo, e comecei a fazer o meu próprio cavaquinho. Depois de fotografado, tornou-se uma das mais importantes capas que fiz”.

Lula e o Fundo de greve

Os mais “antigos” hão de se lembrar. Os mais “novos” devem conhecer essa obra de Elifas: o cartaz feito para o Fundo de Greve do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, de 1979. No livro da Editora J.J. Carol, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatiza que “Elifas pertence à geração inconformada com as riquezas da sua terra e as misérias cada vez maiores da sua gente. É por isso que nada na sua obra é gratuito. Um trabalho dele que se tornou um símbolo da nossa luta é aquele que fez para o Fundo de Greve do Sindicato dos Metalúrgicos. Por onde passo, em cada canto deste País em que há alguém lutando por um Brasil mais justo, encontro o Elifas nas paredes, um elo entre os primeiros embates e a utopia que continuamos perseguindo”.
O presidente da República continua seu depoimento: “Tanto faz se é uma capa de disco ou um cartaz de teatro, se o tema é a morte ou a vida, a luta dos trabalhadores ou um cenário de TV – em tudo há a marca do Elifas companheiro, peão, não apenas reproduzindo a realidade, mas sempre se empenhando em transformá-la, torná-la mais bela, mais livre, mais digna”.



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