12/09/2022 | Notícia Simesp

Nota de repúdio à prisão do psiquiatra Flávio Falcone e à repressão das pessoas em situação de rua


O Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) repudia a ação policial ocorrida no dia 01 de setembro na rua Helvétia, região da capital paulista denominada “cracolândia”. Lá estão instaladas pessoas em situação de rua no que se chama “fluxo”, espaço que abriga venda e uso de drogas, mas que também reúne pessoas que moram, cozinham umas para as outras e convivem. Na data, policiais conduziram à delegacia o psiquiatra Flávio Falcone, que foi detido, e outros terapeutas e usuários do projeto “Teto, Trampo e Tratamento”.

Agentes da polícia chegaram armados ao local e atiraram balas de borracha – uma delas atingiu a psicóloga Ludmila Frateschi no braço. Direcionaram-se a dois terapeutas que estavam caracterizados de palhaços e disseram-lhes que deveriam ir à delegacia. Diante da exigência por parte dos integrantes do projeto, de que a equipe permanecesse unida, 15 pessoas foram conduzidas até ao 77º DP. Uma bicicleta com equipamento de som usado nas atividades foi apreendida sem qualquer respaldo legal ou justificativa. De acordo com o que foi passado aos advogados, a detenção foi justificada por “perturbação da ordem pública”. Vale dizer que os profissionais referem não ter recebido quaisquer informações durante a detenção, trajeto ou permanência na delegacia, mas somente após a chegada dos advogados. 

A ação se insere em um contexto de aumento da repressão policial às pessoas que integram o “fluxo”, o que tem levado, principalmente neste ano, à dispersão desses sujeitos. Isso reduz as possibilidades de ações terapêuticas e assistenciais a quem necessita e se encontra em grande vulnerabilidade.

O psiquiatra Flávio Falcone iniciou sua atuação na “cracolândia” há 10 anos, ainda no governo Haddad, integrando o programa “Braços Abertos”. Com a troca de gestão e adoção de outras estratégias, em substituição ao modelo de redução de danos, o psiquiatra decidiu manter de forma independente o trabalho que já vinha realizando. Inspirando-se no conceito canadense do “housing first”, Flávio e outros profissionais que integram o “Teto, Trampo e Tratamento” entendem que o tratamento não pode ser reduzido aos acompanhamentos de saúde. Um local seguro para morar e a possibilidade de se manter financeiramente se colocam como condições básicas e prioritárias para qualquer pessoa, e a reabilitação ou retomada de uma condição de vida saudável se torna muito difícil sem que tais condições sejam garantidas.

Além de olhar com seriedade e pautar as suas estratégias nas determinações sociais do processo saúde-doença, o Projeto se mantém fiel ao modelo de redução de danos. Para esta proposta terapêutica, a formação de vínculo é central. A aproximação dos usuários e vinculação com os mesmos se dá através da arte, que também promove e evidencia a vida existente no local. A palhaçaria e o slam são os recursos mais usados pelos participantes.

Ações terapêuticas como as desenvolvidas por esses trabalhadores devem, em nossa concepção, ser estimuladas e reconhecidas e não penalizadas e reprimidas como tem acontecido. Projetos do tipo são absolutamente essenciais para os enfrentamentos das condições de adoecimento e marginalização que caracterizam a nossa sociedade.



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