Após longa espera, foram divulgadas as notas do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), aplicado pelo Ministério da Educação (MEC). Os resultados são preocupantes: cerca de 30% dos cursos de medicina do país tiveram nota 1 e 2, consideradas insatisfatórias. O Simesp convoca a categoria médica e a sociedade civil como um todo a pressionar o MEC, órgão competente para a fiscalização do ensino superior no Brasil, para que sanções sejam aplicadas às escolas médicas com desempenho ruim, impedindo que os grandes conglomerados de educação sigam colocando em risco a saúde da população em nome do lucro.
A maior parte dos cursos reprovados foram criados após 2013, período em que vigorou a rápida expansão de escolas médicas, patrocinada pelo Programa Mais Médicos. Segundo a edição de 2025 do estudo Demografia Médica no Brasil, o número de escolas médicas no país foi de 252 para 448 nos últimos 10 anos, com uma média de mais de 2,5 mil novas vagas por ano. O crescimento vertiginoso na quantidade de médicos formados nesse período trouxe questionamentos a respeito da qualidade da formação dos profissionais. Além disso, sem políticas públicas eficazes, esse aumento não foi suficiente para promover a interiorização e fixação de médicos fora dos grandes centros urbanos.
Hoje, a formação médica está nas mãos do mercado de faculdades particulares, que descobriram um negócio lucrativo na cobrança de altas mensalidades e no financiamento por programas como Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). A influência dessas empresas nos governos e no parlamento por muito tempo interditaram um debate qualificado e democrático a respeito dos objetivos e da qualidade dessa expansão de vagas.
Exame da ordem na medicina deve trazer efeitos nefastos
Os conselhos de classe, sem conseguirem escapar à sua vocação corporativista e, em muitos casos, sofrendo de flagrante aparelhamento político-partidário, defendem a criação de um “exame da ordem” na medicina como forma de enfrentar a situação. Essas entidades ignoram os efeitos nocivos que um exame semelhante teve entre os advogados: o Brasil tem ao menos 2,5 milhões de pessoas com formação em direito, segundo dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), porém, os advogados que exercem de fato a profissão correspondem a cerca de 1,3 milhão. Para se ter uma ideia, há um advogado para 164 brasileiros residentes no país, enquanto nos Estados Unidos há um para cada 253 habitantes.
O Simesp reforça sua posição contrária a um “exame da ordem” na medicina. Uma prova de proficiência seria não só insuficiente, mas danosa, já que permitiria e incentivaria escolas precárias a continuar aumentando suas vagas, aprofundando a deterioração da formação médica.
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