Tratar crianças desnutridas no Níger foi a primeira e, até o momento, a mais difícil missão da médica Rachel Esteves Soeiro. “E quando eu falo de criança desnutrida, não é uma criancinha emagrecida. É uma criança que tem dois anos e pesa cinco quilos. Praticamente pele e osso”, recorda. O peso de um gato doméstico. “Nós perdemos muitas crianças. E isso causa um impacto muito grande”, lembra a médica nascida na capital paulista.
Entre junho de 2011 e março de 2012, Rachel Esteves Soeiro atuou, por meio da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), no combate às consequências de uma grave crise humanitária naquele que hoje pode ser considerado o país mais pobre do mundo. O Níger, de acordo com o mais recente Relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, é o último colocado entre 187 países analisados.
“No primeiro semestre de 2012, o Níger experimentou uma grave crise alimentar e de nutrição desencadeada por uma seca que durou de finais de 2011 ao início de 2012. O país havia passado por uma crise alimentar semelhante entre fevereiro e agosto de 2010, uma vez mais desencadeada pela seca”, diz o relatório do ano 2014.
A médica Rachel Esteves Soeiro desembarca no país da África Subsaariana em meio ao cenário já descrito; agravado, segundo o mesmo relatório, por um conflito armado no vizinho Mali que começa em março de 2012 (e que provocou a fuga de dezenas de milhares de pessoas para um Níger que já não podia, sequer, dar conta dos seus). Foi o início da tempestade perfeita.
“Isso pra mim foi muito difícil. De me deparar em uma situação tão extrema, de tanta vulnerabilidade”, conta a médica que atualmente mora e trabalha em Campinas, cidade do interior de São Paulo. Quando não está no exterior, em missões do MSF, ela trabalha no chamado “Consultório na Rua”, estratégia instituída em 2011 pelo governo federal como forma de garantir o atendimento de saúde aos moradores de rua.
Em 2014, a médica, formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), se encontraria de novo, voluntariamente, no coração da tempestade: no auge da última epidemia do vírus Ebola. Ela iria dar assistência aos habitantes da Guiné, outro país da África Subsaariana. A médica, que tem especialização em Medicina de Família e Comunidade, lembra que epidemia continua (com uma média de 2 a 3 novos casos, por semana, na Guiné e no vizinho Serra Leoa).
“A pior crise enfrentada foi realmente o Ebola. Foi uma crise sem precedentes”, conta. A médica lembra que a situação, já bastante grave, se complicava diante de um “frágil” sistema de saúde local. Mesmo assim, Rachel Esteves Soeiro comemora o trabalho realizado na ocasião. Diante do primeiro caso suspeito da doença na Guiné, a organização Médicos Sem Fronteiras, conta, mobilizou uma equipe rapidamente. E ela acredita que a agilidade da resposta foi fundamental para que muitas vidas fossem salvas.
“Nós tivemos um índice de cura de 70% dos pacientes”, diz. Geralmente, no caso do Ebola, é o contrário: a maioria dos infectados pelo vírus morre. A Organização Mundial de Saúde apontou, mais recentemente, que a taxa de mortalidade do vírus gira em torno de 50% dos casos.
A médica conta que, em 2002, quando ainda era estudante de medicina, participou de um evento promovido pelo MSF. “Naquele momento eu já me interessei muito em trabalhar com eles”, relata. “Eu fiquei encantada”, recorda. Em 2011, ela começa a trabalhar na organização humanitária internacional. Desde então, além dos já citados Níger e Guiné, ela também já atuou no Sudão do Sul e República Democrática do Congo. Todos localizados no continente africano.
Rachel Esteves Soeiro conta que o tempo de permanência em cada lugar varia de um a nove meses. Para cada projeto, o médico e outros profissionais possuem um contrato de trabalho com um período pré-determinado. Esse tempo tem a ver com o desgaste físico e psicológico ao qual o profissional estará exposto nas semanas e meses seguintes. Afinal, “quando está cansado você fica mais propenso a cometer erros.”
Além disso, ainda de acordo com a médica paulista, cada projeto terá uma equipe formada de acordo com a necessidade de cada empreitada. “A organização tem profissionais que foram recrutados. E aí eles vão procurar encaixar esses profissionais em projetos que tenham a ver com o perfil dele”, explica.