As mulheres já representam a maioria da categoria médica no estado de São Paulo. Segundo a edição 2026 da pesquisa Demografia Médica do Estado de São Paulo, elas passaram de 42,7% dos profissionais em 2015 para 52,2% em 2025. A projeção é que, em 2035, elas correspondam a cerca de dois terços dos médicos paulistas, consolidando uma transformação histórica no perfil da profissão.
O fenômeno, conhecido como feminilização da medicina, reflete uma combinação de fatores, entre eles a expansão do número de escolas médicas, o aumento das vagas na graduação e políticas de ampliação do acesso ao ensino superior. Atualmente, as mulheres já são maioria entre os egressos dos cursos de medicina e também predominam nos programas de residência médica.
Para o coordenador da pesquisa Demografia Médica do Estado de São Paulo 2026, Mário Scheffer, a mudança representa uma nova configuração da profissão, marcada também pelo rejuvenescimento e pela maior diversidade entre os médicos.
“Com a expansão da oferta de cursos, vemos surgir uma nova fisionomia da medicina paulista com mais mulheres, mais jovens e maior diversidade étnica e social. A feminilização da profissão é um fenômeno consolidado e merece ser comemorado, mas precisamos observar se ela será acompanhada de uma efetiva igualdade de gênero dentro da medicina.”
Apesar do avanço numérico, os desafios permanecem. Os dados apresentados por Scheffer mostram que as mulheres continuam minoria na maior parte das especialidades médicas, ocupam menos cargos de liderança em instituições de saúde, entidades médicas e escolas de medicina e, em média, recebem remuneração inferior à dos homens.
Segundo a secretária-geral da diretoria plena do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), Juliana Salles, a feminilização da profissão ocorre justamente em um momento de intensificação da precarização das relações de trabalho, marcada pelo crescimento da terceirização e da pejotização.
“A categoria está se tornando cada vez mais feminina justamente quando os vínculos de trabalho estão mais precarizados. A luta contra a pejotização, pela regulamentação da jornada e pelo piso nacional da categoria terá impacto direto na vida das médicas, que hoje representam a maioria dos profissionais e precisam de condições dignas para exercer a profissão, constituir família e garantir direitos como licença-maternidade e proteção à gestação.”
Juliana lembra que a precarização afeta toda a categoria, mas produz efeitos ainda mais profundos sobre as mulheres. A ausência de vínculos formais dificulta o acesso a direitos relacionados à maternidade, à amamentação e à estabilidade durante a gestação. Além disso, jornadas extensas, múltiplos vínculos empregatícios e plantões sucessivos tornam ainda mais difícil conciliar a vida profissional e familiar.
Outro desafio apontado é o ambiente de trabalho. Mesmo sendo maioria na profissão, as mulheres continuam enfrentando estruturas hierarquizadas que favorecem situações de assédio e dificultam sua ascensão a posições de liderança. Para o Simesp, a ampliação da participação feminina na medicina precisa ser acompanhada por políticas efetivas de combate às desigualdades e valorização do trabalho médico.
Nos últimos anos, o sindicato tem incorporado essas pautas às campanhas salariais e às negociações coletivas, conquistando cláusulas como a de trabalho igual, salário igual e defendendo a ampliação da licença-maternidade, ambientes de trabalho seguros para gestantes e medidas de enfrentamento ao assédio. Para a entidade, fortalecer os vínculos de trabalho e combater a precarização são medidas essenciais para garantir que a feminilização da medicina também representa mais direitos, valorização profissional e igualdade de oportunidades.