De acordo com Carlos Roberto Jamil Cury, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), como os cortes foram lineares, prejudicarão o conjunto dos estudos que estão sendo produzidos. “Há determinadas pesquisas, sobretudo as laboratoriais, que terão impacto mais imediato. O que faz com que elas sejam altamente prejudicadas, seja no seu prosseguimento ou até mesmo na sua extinção. Isso seria um duplo desperdício de recursos públicos”, afirma.
É o que sente na pele o médico André Báfica, que atua como professor de imunologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sem a possibilidade de contratação de pessoal técnico especializado, o laboratório em que atua terá dois projetos promissores paralisados, um sobre uma forma de modular a resposta imune humana contra a tuberculose e outro sobre um alvo terapêutico que atua na disseminação da doença.
A princípio, os cortes seriam destinados a três universidades devido a atitudes nomeadas como “balbúrdia” pelo ministro Weintraub. Com o argumento de cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal e o teto de gastos, os cortes foram ampliados para outras unidades federais de ensino superior e para todas as fases da educação, incluindo a básica. De acordo com dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento do Governo (Siop), o valor do contingenciamento já passa dos R$7 bilhões.
Já no início de maio, o corte foi estendido às novas bolsas de mestrado e doutorado concedidas pela Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação (MEC). Segundo reportagem do portal G1, o contingenciamento já fez a Capes perder R$ 819 milhões, resultando no anúncio do corte de 5 mil bolsas de pesquisa concedidas pela instituição.
A retirada de verbas impacta diretamente nos planos de carreira acadêmica, como é o caso de Báfica. “Estou no processo de desistência de fazer pesquisas competitivas com cooperação internacional. Por exemplo, este ano reduzi as colaborações em cerca de 50%, pois não há financiamento para missões de estudos e compra de reagentes”.
De acordo com o estudo “Pesquisa no Brasil – Um relatório para a CAPES”, realizado pela empresa Clarivate Analytics, 99% das pesquisas nacionais são realizadas em universidades públicas. Além disso, o país está entre os 15 países com maior número de estudos científicos no mundo.
Cury explica que hoje existe uma grande possibilidade de levar a diante pesquisas que podem resultar em patentes e outras formas de presença do Brasil no âmbito internacional e da efetividade do desenvolvimento nacional. Para ele, a consequência do contingenciamento será a pior possível.
Para Báfica, os avanços dos estudos básicos em medicina que estavam começando a aparecer em vários laboratórios do país, agora devem retroceder consideravelmente. “O país dependerá ainda mais de medicamentos, kits diagnósticos e tecnologias importadas. A previsão é a de que o contribuinte pagará ainda mais caro por tudo isso por meio do SUS (Sistema Único de Saúde) ou do plano de saúde”.
Ainda segundo o professor da UFSC, o impacto futuro será ainda maior, já que o corte das bolsas não permitirá o treinamento de pós-graduandos em nível avançado (mestrado, doutorado e pós-doutorado).
Jamil Cury acredita que, para a situação melhorar, é preciso que, de alguma forma, os recursos sejam retomados para que as pesquisas não sejam interrompidas. Além disso, “seria importante haver uma conjugação que articularia recursos nacionais e estaduais vindos do poder público com apoio da iniciativa privada e que houvesse também uma gestão efetiva no interior das nossas universidades”.
Brasil se manifesta
Estudantes de todas as áreas e demais cidadãos se manifestaram pela segunda vez no dia 30 de maio, em mais de 100 cidades, contra os cortes na educação anunciados pelo governo Bolsonaro. Estima-se que mais de 1 milhão de pessoas tenha participado do ato. Só na cidade de São Paulo, foram cerca de 250 mil manifestantes, segundo a União Nacional dos Estudantes (UNE).
Médicos residentes aderiram à mobilização por entenderem que esse contingenciamento repercute em todos os programas de pós-graduação em que muitos médicos hoje estão inseridos.
Ainda, no dia 15 de maio, foi realizado o primeiro ato dos estudantes contra o bloqueio em todas as capitais do Brasil e em mais cerca de 150 cidades.