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Mais médicos, sim; mas em postos precarizados: Demografia Médica revela contradições da medicina em São Paulo

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28/04/2026 | Notícia Simesp

Mais médicos, sim; mas em postos precarizados: Demografia Médica revela contradições da medicina em São Paulo

A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, por meio de seu Departamento de Medicina Preventiva, lançou mais uma edição da Demografia Médica do Estado de São Paulo 2026. Em entrevista exclusiva ao Simesp, o coordenador do estudo, Mário Scheffer, revela que São Paulo poderá registrar excedente de médicos já na próxima década. A notícia parece ser positiva, mas não elimina desafios estruturais: o Estado ainda apresenta desigualdades regionais profundas e baixa retenção de profissionais no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS).

Embora concentre a maior formação de médicos e especialistas do país, São Paulo mantém sua força de trabalho fortemente direcionada ao setor privado, o que aprofunda distorções no acesso da população ao atendimento público. Ao mesmo tempo, a pesquisa evidencia mudanças importantes no perfil da categoria — como a feminização da medicina e o aumento da diversidade racial entre estudantes — transformações que convivem com persistentes desigualdades de gênero, sub-representação em espaços de liderança e um cenário cada vez mais preocupante de precarização do trabalho médico, marcado por múltiplos vínculos, pejotização e jornadas excessivas.

Simesp: O estudo aponta que São Paulo já tem 4,2 médicos por mil habitantes e poderá ultrapassar 7 por mil até 2035. Como explicar que, mesmo com esse crescimento, persistam vazios assistenciais e desigualdades regionais?

Mário Scheffer: São Paulo poderá ter, pela primeira vez, um excedente de médicos, mas isso não significa distribuição equilibrada. Temos quase 200 mil médicos no estado, mas concentrados em determinadas regiões e cidades. Enquanto municípios como Ribeirão Preto já têm cinco médicos por mil habitantes, regiões como Registro têm pouco mais de dois. Não vivemos mais uma escassez absoluta, mas uma desigualdade na distribuição que depende de políticas públicas de retenção e redistribuição.

Simesp: Sendo o maior formador de médicos do país, por que o estado retém tão poucos profissionais no SUS, especialmente na atenção primária?

Mário Scheffer: São Paulo tem uma presença muito forte do setor privado. Mais de 40% da população do estado tem plano de saúde — na capital, esse número chega a 50%. Isso cria uma enorme oferta de trabalho fora do SUS. No caso dos cirurgiões gerais, por exemplo, menos de 7% atuam exclusivamente no SUS. É preciso que o SUS adote políticas específicas para competir com esse mercado e atrair médicos para o setor público.

Simesp: A concentração em cidades como São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto também está ligada ao papel dessas regiões como pólos formadores?

Mário Scheffer: Sem dúvida. São Paulo concentra 30% dos médicos residentes do país. Mais de 80% dos residentes estão em apenas dez municípios, principalmente onde há grandes instituições públicas formadoras. O estado é um grande polo de formação e também um grande mercado de trabalho, o que reforça essa concentração.

Simesp: O estudo mostra um crescimento de especialistas em medicina de família e comunidade (MFC), mas ainda insuficiente. Quais os impactos disso para o SUS?

Mário Scheffer: A especialidade cresce, mas em ritmo insuficiente para suprir a demanda da APS. Hoje temos cerca de 80 mil médicos generalistas no estado. Muitos atuam na atenção primária e em plantões. Isso reforça a necessidade de uma formação generalista sólida e da ampliação da residência médica, inclusive reduzindo a ociosidade de vagas já credenciadas.

Simesp: O levantamento aponta que 20% das vagas de residência credenciadas não são ocupadas. Como explicar esse paradoxo?

Mário Scheffer: Falta financiamento de bolsas e preceptores. Não é admissível que, diante da necessidade de formar especialistas, tenhamos vagas ociosas. Precisamos enfrentar esse gargalo se quisermos equilibrar a formação com a expansão acelerada da graduação.

Simesp: A feminização da medicina já é realidade. Quais os impactos dessa mudança?

Scheffer – As mulheres já são maioria entre os médicos e devem ultrapassar 60% em dez anos. É um fenômeno positivo, mas ainda convivemos com desigualdade de gênero. Elas são minoria em 33 das 55 especialidades, têm renda menor e são sub-representadas em cargos de liderança. A feminização precisa vir acompanhada de igualdade de condições.

Simesp: O estudo também aponta maior diversidade racial entre os estudantes. O que isso representa?

Mário Scheffer: Houve aumento de estudantes autodeclarados pretos e pardos, principalmente em cursos públicos, graças às políticas afirmativas. Essa diversidade não é apenas questão de justiça social, mas também fortalece o sistema de saúde, aproximando o perfil dos profissionais ao da população atendida.

Simesp: Um dos pontos de atenção do estudo é o retrato do trabalho médico. O que os dados mostram?

Mário Scheffer: Identificamos um cenário complexo e preocupante. Mais de 65% dos cirurgiões trabalham em quatro ou mais serviços. Mais de 60% fazem plantões regularmente. Cerca de 80% têm vínculos como pessoa jurídica. Muitos atuam em mais de um município. Há uma remuneração elevada em comparação a outras profissões, mas às custas de múltiplos empregos, jornadas excessivas e vínculos informais. São sinais claros de precarização do trabalho médico que precisam de atenção das entidades representativas da categoria.