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Livro lançado no Brasil conta minuciosamente a vida de J.D. Salinger

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01/07/2011 | Notícia Simesp

Livro lançado no Brasil conta minuciosamente a vida de J.D. Salinger

J.D. Salinger: uma vida", biografia do autor de "O apanhador no campo de centeio" lançada em janeiro passado por Kenneth Slawenski nos EUA e que chega agora ao Brasil pela editora LeYa, é um minucioso trabalho de exame dos traços que fizeram de Salinger um personagem universalmente conhecido: a qualidade de seu trabalho de escritor e a obsessão pela defesa de sua privacidade.

– Minha meta era conectar os acontecimentos da vida dele diretamente à evolução de sua literatura. As experiências de vida alimentavam a criatividade dele, como é natural. Se você corta essa fonte de inspiração, o que resta? – questiona Slawenski.

Sem textos inéditos por 45 anos

Quando Salinger morreu, em 2010, aos 91 anos, mais de cinco décadas haviam se passado desde sua mudança para as montanhas da Nova Inglaterra (primeiro em Connecticut e depois em New Hampshire), em busca de um sossego nunca completamente alcançado. Nenhum texto novo seu fora publicado desde 1965. Na biografia, que consumiu sete anos de trabalho, Slawenksi, de 54 anos, fã de Salinger e criador do blog DeadCaufields.com, desmonta os mitos do sucesso instantâneo e da reclusão intempestiva.

Os textos de Salinger foram rejeitados durante anos, por diversas publicações, inclusive a "New Yorker", na qual viveria a glória. Publicado em 1951, quando Salinger, aos 32 anos, era um veterano da Segunda Guerra Mundial, "O apanhador no campo de centeio" acompanhou seu autor (com os manuscritos ainda em versão preliminar) no desembarque na Normandia, na libertação de Paris e até a vitória na Alemanha. Salinger foi um dos 563 sobreviventes entre os 3.080 soldados aliados que enfrentaram os alemães na gelada floresta de Hürtgen em dezembro de 1944.

– A experiência da Segunda Guerra Mundial foi o episódio essencial da vida dele. A guerra levantou uma série de questões sobre a Humanidade, sobre Deus, sobre relacionamentos. E essas questões encontram seu caminho para o papel, então o Salinger do pós-guerra é extraordinariamente melhor do que era antes – diz Slawenski.

Encerrada a guerra, Salinger permaneceu na Alemanha, trabalhando como agente de contrainteligência em Nuremberg. Lá, casou-se com a médica alemã Sylvia Louise Welter, para quem conseguiu um passaporte francês falso. Vivendo os efeitos do que então se chamava fadiga do combate – e que hoje seria definido como estresse pós-traumático -, Salinger procurou tratamento psiquiátrico. Mas, segundo Slawenski, sua preocupação já era a publicação de "O apanhador", um livro que ele sabia que seria polêmico.

– Ele contou a Ernest Hemingway que o único motivo pelo qual buscou tratamento foi o medo de receber baixa por problemas psicológicos, e o que isso significaria quando ele lançasse o livro. Ele temia que as pessoas fossem citá-lo como "o cara que foi expulso do Exército" – conta Slawenski.

Na pesquisa para o livro, o biógrafo não encontrou indícios de que Salinger tivesse voltado a recorrer a algum tipo de tratamento psiquiátrico. O processo de reclusão começou na década de 1950 e teve ao menos dois momentos decisivos: em 1961, no auge do sucesso, repórteres e fotógrafos passaram a rondar a casa de Salinger nas proximidades do vilarejo de Cornish, em New Hampshire, escondendo-se atrás das árvores para tentar roubar uma imagem, ou assediando seus vizinhos.

– A partir dali, não havia mais volta. Ele se ressentia muito da invasão de privacidade. Salinger via a reclusão como o preço a pagar pela dedicação ao trabalho, e o trabalho era tudo, era a vida dele – afirma Slawenski.

Em 1965, Salinger parou de publicar, embora continuasse escrevendo, o que alimentava especulações de que haveria um cofre gigantesco com seus escritos na propriedade em que vivia com a segunda mulher, Claire, e os dois filhos, Margaret e Matthew. As informações, contudo, eram escassas, e os poucos amigos do escritor que se atreveram a romper a lei do silêncio foram punidos com a ruptura.

– Ele era um amigo fiel, mas exigia a mesma lealdade de seus amigos. Se você fizesse algo que ele entendesse como uma violação de confiança, ele cortava completamente a relação – diz o biógrafo, que não conseguiu entrevistar seu personagem e só obteve informações de amigos e parentes mediante garantia de anonimato.

Um incidente trágico aprofundaria os problemas de Salinger na noite de 8 de dezembro de 1980: Mark Chapman, o assassino de John Lennon, esperou a polícia prendê-lo lendo "O apanhador no campo de centeio", sentado no meio-fio em frente ao edifício Dakota, onde o ex-beatle morava, em Nova York.

– Ele ficou com medo de ir a Nova York, parou de abrir as cartas dos fãs. O assassinato de Lennon teve um efeito terrível sobre ele.

Filha foi excluída do espólio

O mistério sobre a produção dos últimos 45 anos de vida de Salinger não foi desfeito nem com sua morte. Slawenski conta que, como muitos dos fãs do autor, teve esperança de que a família iniciasse o processo de publicação em algum momento, mas isso não aconteceu. Especula-se que Salinger teria pedido alguns anos de espera aos administradores de seu espólio – a terceira mulher, Colleen, e o filho mais novo, Matthew. Margaret, a primogênita, foi excluída depois de publicar um livro autobiográfico no qual retratava o pai sob uma luz negativa, em 2000.

– Eles parecem não ter pressa. T.S. Eliot não queria que suas cartas fossem publicadas, e elas acabaram saindo, mas só depois de 25 anos. Espero que não tenhamos que esperar tanto tempo – conclui Slawenski.