Na última segunda-feira, Dia Mundial da Saúde, foi apresentado no Conselho Federal de Medicina o relatório do grupo de trabalho que visitou hospitais públicos que tinham maior movimento nos serviços de urgência e emergência em oito estados das cinco regiões do País.
Pacientes internados nos corredores, falta de materiais básicos, como luvas e seringas: esse foi o quadro encontrado por integrantes da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, que integrou o grupo de trabalho.
A situação encontrada em todos os hospitais é muito parecida, como destaca o deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA), um dos responsáveis pelas diligências. "Eu poderia resumir a realidade da maioria desses hospitais de forma cotidiana: é um acampamento de guerra, com as pessoas sendo depositadas nessas unidades, as famílias absolutamente desesperadas, esperançosas que sejam atendidas com um mínimo de qualidade e a frustração total.”
Baratas no hospital
Jordy acrescentou que no Hospital Municipal Souza Aguiar, que fica na cidade do Rio de Janeiro, o grupo encontrou, inclusive, baratas dentro das unidades. “Dentro dos leitos, dentro das dependências físicas daquele hospital, onde, inclusive, alguns familiares faziam vigília à noite para que esses insetos não incomodassem os pacientes que lá se encontravam."
O parlamentar também avaliou a situação do Hospital de Base, em Brasília, que considerou uma das mais graves. "Dos hospitais que nós percorremos, em alguns aspectos, é uma das mais graves. Tivemos denúncias de alguns pacientes, no caso do Hospital de Base, de que o indicador de óbito não conferia com os dados oficiais. Isso foi uma das situações que nos chamou atenção. Nós encaminhamos essas pessoas que denunciaram para o Ministério Público, que estava nos acompanhando, para fazer a investigação devida, se for cabível."
Falta de UTI
O coordenador da Câmara Técnica de Urgência e Emergência do Conselho Federal de Medicina, Mauro Ribeiro, citou outro fato que prejudica os atendimentos nos serviços de urgência dos hospitais – a falta de leitos em unidades de terapia intensiva (UTIs). "Dentro do caos, talvez o mais grave seja o de pacientes que necessitam de unidade de terapia intensiva, pois hoje não há leitos de terapia intensiva no Brasil em número suficiente para atender a população. Esses pacientes estão ficando nas dependências do pronto-socorro, nas salas vermelhas dos prontos-socorros, entubados, no ventilador, sem ter a assistência de terapia intensiva. Esses pacientes morrem a granel em todos os hospitais do Brasil."
Orçamento para saúde
Um dos motivos desse caos, segundo o relatório, é o subfinanciamento da saúde.
Análise feita pelo Conselho Federal de Medicina aponta que, nos últimos 13 anos, o Ministério da Saúde deixou de aplicar mais de R$ 100 milhões no Sistema Único de Saúde (SUS).
Além disso, segundo Arnaldo Jordy, em média, apenas 10% do dinheiro que é aprovado para a área de saúde no Orçamento da União é efetivamente gasto.
Os resultados do relatório vão ser enviados à presidente Dilma Rousseff, aos presidentes da Câmara e do Senado, e ao Supremo Tribunal Federal, porque, de acordo com o Arnaldo Jordy, algumas medidas sugeridas no relatório vão precisar de intervenção judicial.
Hospitais visitados
O grupo de trabalho também visitou os hospitais Arthur Ribeiro de Saboya, em São Paulo; Roberto Santos, na Bahia; João Paulo 2º, em Rondônia; Pronto Socorro Municipal Mario Pinotti, no Pará; Nossa Senhora da Conceição (Porto Alegre), no Rio Grande do Sul; e o Pronto Socorro Municipal de Várzea Grande, no Mato Grosso. As visitas ocorreram de 19 de setembro de 2011 a 14 de dezembro de 2012.