Estudantes de medicina denunciam a mercantilização do ensino público com programa de estágio de R$ 8,4 mil no Hospital das Clínicas e apontam colapso do Hospital Universitário após perda de 25% dos funcionários os últimos anos
Em meio à escalada da greve na Universidade de São Paulo (USP), estudantes da Faculdade de Medicina (FMUSP), juntamente com os profissionais do Hospital Universitário (HU) e da universidade, convocam uma grande manifestação em São Paulo para esta quarta-feira (29), às 13h, com bloqueio da Av. Dr. Arnaldo e caminhada até a Av. Paulista. O ato denuncia o que classificam como mercantilização do ensino médico público por meio do programa “Experiência HCFMUSP na Prática”, que cobra R$ 8.450 mensais de estudantes de universidades particulares por estágio no Hospital das Clínicas e o avanço do sucateamento do Hospital Universitário (HU), que perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década. A mobilização integra a greve mais ampla dos trabalhadores da USP, a primeira com adesão expressiva em cerca de dez anos. A última manifestação ocorreu em 23 de abril, na Av. Faria Lima, e contou com a participação de aproximadamente 1500 pessoas, marcando o início da paralisação dos estudantes de medicina.
De acordo com Henrick Munhoz Martins, vice-presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc) e membro do comando de greve, o que está em curso é um projeto de precarização do ensino médico e do atendimento à população dentro de uma das principais instituições do país. “O programa conhecido como ‘Experiência HC’ permite que estudantes de instituições privadas tenham estágios práticos no Hospital das Clínicas e no Hospital Universitário. Efetivamente, o programa cria um modelo inédito na universidade pública onde o acesso à prática médica é condicionado à capacidade de pagamento e os estudantes da própria USP ficam com acesso restrito às atividades, explica. O programa teve início em 2023 com 214 vagas e, agora, em 2026, estão previstas até 2 mil vagas para alunos externos, número que supera em 3,7 vezes o total de estudantes de medicina do 4º ao 6º ano da própria USP.
Na prática, o Experiência HC cria um modelo em que o acesso à formação clínica passa a ser condicionado à capacidade de pagamento, com efeitos já perceptíveis no cotidiano dos estágios. “Estudantes da FMUSP relatam uma série de situações em que perderam espaço para alunos do programa com internos deslocados para funções burocráticas, como redigir prontuários de atendimentos realizados por estudantes pagantes; restrição de acesso a centros cirúrgicos para priorizar vagas do programa; superlotação de enfermarias e ambulatórios; e impedimento dos alunos da própria universidade de participarem de exames e discussões clínicas à beira-leito, conta Martins”.
Os estudantes afirmam que o problema extrapola a formação e atinge o atendimento à população. “Quando o acesso à prática vira produto, o paciente vira meio”, resume Martins, que alerta para riscos éticos e para a piora da qualidade da assistência no SUS. Não coincidentemente, o movimento denuncia o agravamento da crise no Hospital Universitário (HU) da USP. Desde 2014, o HU perdeu cerca de 30% de seus funcionários, o que resultou no fechamento de aproximadamente 25% dos leitos de internação, 40% dos leitos de UTI e fez com que seus prontos-socorros operassem de portas fechadas desde 2017. “Atualmente o hospital opera com menos de 70% de sua capacidade, deixando desassistida a população da Zona Oeste de São Paulo e comprometendo a formação prática de alunos de diversos cursos da saúde”, segundo Martins. Para se ter uma ideia do desmonte do HU, segundo o último Anuário Estatístico da USP, em 2024 foram realizadas 32.173 consultas para a comunidade SUS do Butantã, o que equivale a apenas 11,5% das realizadas em 2013. A redução de leitos foi de quase metade também em comparação a 2013, passando de 233 para 128.
Estudantes questionam uso dos recursos do Experiência HC
Outra frente central de crítica dos estudantes é o modelo de financiamento associado ao programa. Segundo a liderança do CAOC, parte relevante de despesas da graduação, como bolsas estudantis, pagamento de preceptores e custos operacionais de disciplinas, passou a depender diretamente da arrecadação do “Experiência HC”, mesmo a instituição tendo superávit de verbas para isso. “Para se ter uma ideia, a previsão é de que o programa gere cerca de R$ 15,2 milhões em 2026, mas, em contrapartida, a Fundação Faculdade de Medicina, organização social (OS) que atua no apoio ao Sistema Acadêmico de Saúde FMUSP-HC recebe 85% do faturamento do experiência HC e tem um superávit de 42 milhões, valor este que seria suficiente para custear múltiplas vezes essa despesa”, aponta o Martins.
“Essa lógica é uma estratégia que busca vincular o pagamento de itens necessários a um programa desnecessário para garantir a sua existência e expansão de forma arquitetada. Diante do orçamento da USP e de entidades vinculadas à universidade, os valores arrecadados pelo ‘Experiência HC’ são proporcionalmente pequenos e não justificariam a adoção de um modelo”, finaliza o vice-presidente do CAOC.
Segundo relatórios da fundação, entre o início do programa e o fim de 2024, cerca de 100 mil reais foram gastos com itens como broches, tirantes, cadernos de anotações, garrafas e outros, o que levanta dúvidas sobre a pertinência e transparência dos gastos do faturamento do programa.
Entenda as demais pautas do movimento estudantil
Minuta que ameaça os espaços estudantis: em discussão na Reitoria da USP, o texto prevê o fim de fontes de arrecadação próprias pelos estudantes, como a sublocação de espaços do centro acadêmico e impõe novos custos fixos, como pagamento de água, luz e manutenção. As mudanças são vistas pelos estudantes como uma ameaça direta à existência das entidades estudantis.
Revisão curricular do curso de medicina: os estudantes afirmam que a revisão do currículo da medicina USP está atrasada e se tornou inadiável. A crítica é de que o modelo atual não acompanha as transformações do sistema de saúde e não prioriza adequadamente a formação voltada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O movimento cobra um processo amplo, participativo e com poder deliberativo real dos estudantes.
Apoio aos trabalhadores da USP: o movimento estudantil se soma às reivindicações dos trabalhadores da universidade, em greve por recomposição salarial e melhores condições de trabalho. Os estudantes defendem isonomia entre categorias, valorização dos servidores e o fim da precarização, apontando que a crise nas condições de trabalho impacta diretamente o funcionamento da universidade.
Restaurantes universitários: a qualidade dos restaurantes universitários também entrou na pauta após sucessivas críticas ao modelo terceirizado. Os estudantes defendem a criação de um grupo de trabalho para viabilizar a “desterceirização” e, enquanto isso, a abertura de nova licitação que garanta padrões mínimos de qualidade. Além disso, os estudantes também pedem a ampliação do acesso aos bandejões para estudantes de cursinhos populares, como medida de inclusão.
Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE): a pauta inclui ainda o aumento do auxílio permanência integral para o valor de um salário mínimo paulista e o parcial para meio salário mínimo. A pauta dos estudantes ainda inclui: adicional de 10% na pontuação total do PAPFE para pessoas transgênero; possibilidade de concorrer ao PAPFE, mesmo em uma 2°graduação USP; e retirada do mecanismo que cancela o auxílio PAPFE em razão de reprovação em disciplinas por frequência ou nota.
Transporte universitário: a falta de transporte adequado entre o Quadrilátero da Saúde e a Cidade Universitária é apontada como um obstáculo concreto à formação. Estudantes relatam perda de atividades, atrasos frequentes e dificuldade de acesso a campos de estágio. Diante disso, o movimento reivindica a expansão do BUSP para esse trajeto. Paralelamente, os alunos também defendem a liberação do uso do transporte para trabalhadores terceirizados, que hoje enfrentam dificuldades de deslocamento dentro da universidade. Para o movimento, ambas as medidas são essenciais para garantir o funcionamento da rotina acadêmica e condições mínimas de trabalho.
Garantias acadêmicas durante e após a greve: os estudantes rejeitam qualquer possibilidade de prejuízo acadêmico e defendem que toda a carga prática seja recomposta presencialmente ao final da paralisação. Paralelamente, o movimento exige um compromisso formal da universidade de que não haverá punições acadêmicas ou administrativas contra quem aderiu à greve. O temor é de sanções indiretas, como prejuízos em avaliações ou restrições em atividades, o que, segundo os estudantes, configuraria retaliação ao direito legítimo de mobilização.