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“É preciso avaliar se o vírus sofreu alguma modificação”

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30/01/2016 | Notícia Simesp

“É preciso avaliar se o vírus sofreu alguma modificação”

A avaliação, em meio a um surto do vírus H1N1, é da médica Carolina Lázari. A entrevista, inclusive, foi adiada, em alguns dias, porque ela foi uma das 260 pessoas infectadas, até a finalização do texto, pela gripe H1N1 no estado de São Paulo. Diante da triste ironia, a assessora para infectologia do laboratório Fleury e médica assistente da Divisão de Moléstia Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas, reforçou a importância de o profissional de saúde se vacinar contra esse vírus relativamente novo (resultante de mutações genéticas do influenza, o causador da gripe). Trabalhadores da área da saúde são um dos grupos prioritários nas campanhas de vacinação contra a gripe (estratégia do Ministério da Saúde que segue recomendação da própria Organização Mundial da Saúde). A médica, formada pela Universidade Federal de Uberlândia, conta que tinha se imunizado no ano passado, mas lembra que a vacina tem uma validade de, no máximo, 12 meses. O que exige, para uma maior segurança, que se repita a aplicação anualmente. Na entrevista a seguir, ela também discute algumas hipóteses sobre o atual surto de H1N1 e diz que o número de casos, provavelmente, é muito maior do que o divulgado até o momento.

Já que se trata de uma questão íntima, teria algum problema revelar o fato de que essa entrevista foi adiada por que a senhora pegou H1N1?

Pode falar. Um dos grandes problemas que a gente enfrentou em 2009 [ano da primeira pandemia provocada pelo H1N1] e agora também tá enfrentando é que, numa situação de surto, acaba tendo muitos casos em profissionais de saúde e isso também atrapalha a condução do surto. Isso atrapalha o funcionamento, sobrecarrega os serviços de assistência à saúde. Porque, às vezes, há o afastamento de vários profissionais simultaneamente e isso pode impactar na rotina do serviço porque os profissionais de saúde também estão doentes. Então rapidamente o serviço tem que estabelecer qual vai ser a política de afastamento, por quanto tempo, como vai ser o fluxo de confirmação, se vai afastar só os confirmados ou suspeitos etc pra poder ter uma logística de funcionamento nesse período. Pois certamente terão colaboradores e funcionários que vão adoecer durante o surto. E isso reforça a necessidade de vacinação. Profissional de saúde é um dos grupos que tem que vacinar com certeza. Mas existe uma resistência, infelizmente, até entre os profissionais de saúde em se vacinar. Tem gente que não quer tomar. E aí vai estar mais suscetível ainda na ocasião de um surto. Vale reforçar a necessidade do profissional de saúde se vacinar.

O número de casos de H1N1 no estado de São Paulo, durante os três primeiros meses de 2016, já é superior ao que foi registrado em todo o país no ano passado. O que, em sua opinião, explicaria o atual surto?

Esse número que tá sendo divulgado agora, ele, provavelmente, está subestimado em relação ao número de casos. A gente já vem vendo, desde o início do mês, talvez até um pouco antes, aqui na nossa demanda de exames pra influenza e a positividade desses exames também. Então pelo menos desde o início de março a gente já tava vendo mais positivos do que a gente esperava para essa época. Então certamente, no começo dessa circulação, teve muitos casos que não foram confirmados porque as pessoas não estavam ainda pensando nessa possibilidade por causa da época [surtos de gripe são mais comuns no inverno]. Ainda nesse momento deve ter muita notificação que ainda não chegou na tabulação final dos dados. A matemática ainda não está refletindo a realidade. A gente ainda não tem uma explicação científica comprovada. Tenho visto alguns colegas falando que, provavelmente, isso é trazido por pessoas que viajaram para o hemisfério norte, voltaram com H1N1 e acabaram introduzindo em nosso meio antes da temporada. Entretanto, é inverno no hemisfério norte, na época que as pessoas viajam de férias, todo ano. Então… Pode ser que, neste momento, teve uma circulação mais intensa lá e com isso veio pra cá? Pode ser. Houve uma disseminação disso. E a gente ainda não sabe o que provocou essa antecipação do surto e nem por que isso se disseminou tão rapidamente nesse momento do ano. É preciso avaliar se o vírus, que tá circulando agora, sofreu alguma modificação. O influenza é um vírus que tem um material genético altamente mutável. E ele tem uma capacidade de rearranjo genético muito grande. Então a gente tem duas situações de influenza que são muito bem conhecidas: drift e shift. O drift são mutações aleatórias que o vírus vai sofrendo no seu material genético, porque ele é muito mutável, e ele vai acumulando essa mutações. Chega um momento em que se formam algumas mutações, uma não tem a ver com a outra, que se acumularam aleatoriamente. Mas que são suficientes para o vírus não ser tão bem reconhecido pelo sistema imune como ele era quando era a linhagem inicial. Então pode haver surtos relacionados a esse vírus que continua sendo a mesma linhagem, mas a mesma linhagem um pouco diferente a ponto das pessoas que já são imunes a ele, não o reconhecerem tão bem e adoecerem de novo. E o shift é aquilo que aconteceu em 2009. Não só ele acumulou mutações aleatórias como ele recombinou o seu material genético com outras linhagens e formou uma linhagem totalmente nova. E essas linhagens novas são capazes de causar pandemias. O que a Organização Mundial da Saúde divulgou é que o H1N1 que circulou no ano passado não é significativamente diferente do H1N1 que circula desde 2009. Isso é estranho. Talvez o que está circulado aqui não seja exatamente igual ao que circulou no mundo no ano passado. Mas isso não tá confirmado. Isso é uma hipótese.

Qual o tratamento adequado para alguém infectado pelo H1N1? É muito diferente do da gripe comum?

O tratamento é feito com um medicamento administrado por via oral chamado oseltamivir. O termo “gripe comum” é muito abrangente e se refere a entidades muito distintas. Às vezes, é usado para resfriados, que são causados por outros vírus, têm sintomas mais brandos e raramente evoluem com complicações. Para esses quadros, não é necessário tratamento específico, apenas medicamentos para os sintomas e os cuidados que a vovó ensinou. Gripe causada por variantes do influenza, diferentes do H1N1, habitualmente chamadas de “sazonais”, podem requerer tratamento também com oseltamivir.

E quando há indicação para o uso de medicamentos específicos nesse tratamento?

Quando existem sinais de síndrome respiratória aguda grave, isto é, sinais de que a infecção envolveu também as vias aéreas mais baixas e os pulmões, causando repercussões na capacidade de respirar e de oxigenar o sangue, a exemplo de tosse persistente, desconforto para respirar, aumento da frequência respiratória, entre outros. O medicamento é indicado, ainda, para pessoas que, mesmo não apresentando sinais de gravidade no momento do atendimento, apresentam fatores de risco que aumentam a chance de evolução desfavorável: crianças, idosos, gestantes, portadores de doenças crônicas dos pulmões ou coração, pessoas que vivem com HIV ou que receberam transplantes, entre outras.

Cortes de verbas na área da saúde, com possíveis consequências na cobertura vacinal, poderiam explicar esse aumento de casos?

Pra confirmar isso a gente teria que entrar no Programa Nacional de Imunizações. Eu acho que essas informações ainda não estão disponíveis no site do Ministério da Saúde. A gente precisaria pegar o que foi a cobertura vacinal do ano passado, número de doses distribuídas em cada região, principalmente aqui no estado de São Paulo e comparar… Pois sempre que você faz uma campanha de vacinação você tem uma meta. Não basta olhar o número absoluto de doses distribuídas. Agora, eu não tenho esse dado de que realmente tenha tido uma diminuição da cobertura vacinal. Mas, evidentemente, quando a gente fala de restrição de recurso pode sim acontecer. Não só porque faltou um número de doses, mas digamos que a gente fale de unidades de saúde que estão com restrição de pessoal, por exemplo. Então pode acontecer sim que até a unidade tenha o número de vacinas pra cumprir a meta, mas tem tão pouca gente pra aplicar que isso dificultou atingir a meta.