No Dia Nacional do Orgulho LGBTQIAPN+, o debate sobre diversidade na saúde vai desde o acolhimento aos pacientes até as condições de trabalho dos próprios profissionais. Para o médico de família e comunidade (MFC) e organizador do livro “Saúde LGBTQIA+: Práticas de cuidado transdisciplinar” (após a publicação, a sigla foi atualizada para LGBTQIAPN+), Ademir Lopes Junior, hospitais, clínicas, universidades e demais serviços de saúde precisam adotar políticas claras de inclusão e enfrentamento à LGBTfobia. Isso inclui normas institucionais, canais preparados para acolher denúncias de discriminação, respeito ao nome social e ações permanentes de educação e conscientização. Em entrevista exclusiva ao Simesp, Ademir fala sobre os desafios ainda enfrentados pela população LGBTQIAPN+ na saúde e sobre a importância de construir ambientes de trabalho seguros e acolhedores para médicas e médicos da comunidade.
Simesp: O Dia Nacional do Orgulho LGBTQIAPN+ costuma ser associado à celebração da diversidade, mas também é uma data de reivindicação de direitos. Qual você considera que é o principal desafio enfrentado hoje na área da saúde?
Ademir Lopes Junior: O principal desafio ainda é que as pessoas possam viver e se expressar publicamente sem medo. A população LGBTQIAPN+ enfrenta diferentes formas de violência, desde a invisibilidade social até discriminações institucionais e preconceitos internalizados. Muitas pessoas ainda têm receio de falar sobre sua orientação sexual ou identidade de gênero em uma consulta médica ou no ambiente de trabalho por medo de julgamento. Garantir saúde para essa população passa, antes de tudo, por garantir que ela possa existir e se expressar com segurança e dignidade.
Simesp: Apesar dos avanços dos últimos anos, muitas pessoas ainda relatam receio ou constrangimento ao buscar atendimento médico. O que precisa mudar na formação e na prática dos profissionais de saúde para garantir um cuidado verdadeiramente acolhedor?
Ademir Lopes Junior: Quando falamos em direitos humanos, precisamos atuar em três frentes: a legislação, a educação e a convivência. As instituições precisam deixar claro que a LGBTfobia não é aceitável, com normas e mecanismos de responsabilização. Também é fundamental investir em educação, desde a formação médica até a educação permanente dos profissionais de saúde. Além disso, precisamos promover ambientes mais inclusivos porque a convivência é uma das formas mais eficazes de reduzir preconceitos e construir relações verdadeiramente acolhedoras.
Simesp: Você acompanha esse debate há muitos anos. Na sua avaliação, houve avanços concretos na forma como o sistema de saúde e os profissionais atendem a população LGBTQIAPN+?
Ademir Lopes Junior: Sim, houve avanços importantes. Quando me formei, praticamente não existia conteúdo sobre saúde LGBTQIAPN+ na graduação médica. Hoje temos livros, materiais didáticos, ligas acadêmicas, cursos e uma Política Nacional de Saúde Integral LGBTQIAPN+. Também houve ampliação dos serviços especializados e maior visibilidade do tema. Mas ainda existem muitos desafios. Nem todas as regiões do país avançaram da mesma forma e, muitas vezes, vemos instituições adotando discursos de diversidade sem mudanças estruturais efetivas.
Simesp: Quando falamos em diversidade no ambiente de trabalho, geralmente pensamos nos pacientes. Mas como é a realidade dos próprios médicos e médicas LGBTQIAPN+? O preconceito ainda faz parte do cotidiano desses profissionais?
Ademir Lopes Junior: Ainda faz, especialmente no caso das pessoas trans. Existem barreiras institucionais, dificuldades relacionadas ao uso do nome social, problemas em sistemas de cadastro e situações de discriminação em processos seletivos e ambientes de trabalho. Em alguns casos, profissionais LGBTQIAPN+ têm sua competência questionada ou suas iniciativas desqualificadas simplesmente por fazerem parte dessa população. Embora existam instituições mais acolhedoras, o preconceito ainda está presente e precisa ser enfrentado de forma ativa.
Simesp: Qual é o papel das instituições empregadoras na construção de ambientes mais seguros e respeitosos para os profissionais LGBTQIAPN+?
Ademir Lopes Junior: As instituições têm um papel central. Precisam garantir respeito ao nome social, adequar sistemas e documentos, promover formação continuada para todos os trabalhadores e assegurar que os espaços respeitem a identidade de gênero das pessoas. Também é importante criar políticas claras de combate à discriminação e ao assédio. Não basta ter um discurso favorável à diversidade; é preciso transformar isso em práticas concretas.
Simesp: O que os setores de recursos humanos podem fazer para promover inclusão e combater discriminações?
Ademir Lopes Junior: O RH pode atuar desde os processos seletivos até a construção de políticas institucionais permanentes. Isso inclui treinamento das equipes, acolhimento de denúncias, monitoramento de práticas discriminatórias e garantia de que os profissionais LGBTQIAPN+ tenham acesso às mesmas oportunidades de desenvolvimento e liderança. É fundamental que existam regras claras e mecanismos efetivos para identificar e enfrentar situações de LGBTfobia.
Simesp: Muitas vezes a discriminação aparece de forma velada, em comentários e brincadeiras. Como as instituições devem agir diante dessas situações?
Ademir Lopes Junior: Esse é um ponto muito importante. A LGBTfobia nem sempre aparece como uma agressão explícita. Muitas vezes ela se manifesta em piadas, comentários depreciativos ou tentativas de desqualificar profissionais por sua orientação sexual ou identidade de gênero. As instituições precisam reconhecer que essas situações também são formas de violência e devem ser enfrentadas com seriedade, por meio de políticas de prevenção, acolhimento e responsabilização.
Simesp: Que mensagem você gostaria de deixar para médicas e médicos LGBTQIAPN+ neste Dia Nacional do Orgulho, 28 de junho?
Ademir Lopes Junior: O orgulho é justamente a possibilidade de existir sem medo. É poder viver sua identidade, construir sua trajetória profissional e ocupar espaços de cuidado, ensino e liderança sem precisar esconder quem você é. Ainda existem desafios, mas também houve avanços importantes conquistados por muitas pessoas que vieram antes de nós. Continuar ocupando esses espaços e tornando visíveis nossas experiências é uma forma de fortalecer toda a comunidade.
A entrevista também está disponível em vídeo, em nosso canal no YouTube.