Como são as políticas públicas para o HIV hoje?
A resposta brasileira ao HIV/Aids e às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) se inicia no nosso país em 1986 e tem acompanhado o tempo todo o avanço tecnológico de novas medicações e de novos exames disponibilizados internacionalmente. Essa resposta é consistente e envolve os três níveis de governo, com importante participação dos municípios, da Secretarias de Estado da Saúde e do Ministério da Saúde.
Então, hoje temos os principais antirretrovirais que são ofertados para as pessoas que vivem com HIV em nosso país, medicamentos de ponta. Nós temos 580 mil pessoas que vivem com Aids e que recebem esses medicamentos. Temos cerca de 200 ambulatórios que acompanham as pessoas que vivem com HIV, fornecem antirretrovirais e realizam exames que são importantíssimos para que os médicos avaliem como está a pessoa em seu estado imunológico.
Temos à disposição testes rápidos para o diagnóstico da Aids e testes convencionais. A resposta não está só na utilização dos preservativos, mas nas outras estratégias de prevenção, como a Profilaxia Pós-exposição de Risco (PEP) e a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que é a estratégia mais recentemente no nosso país. Então temos as estratégias de promoção à saúde e de prevenção. Temos também a inclusão das pessoas com HIV nos serviços de saúde, que são acompanhadas. Também temos a preocupação com o tratamento, com a adesão, e também com a possibilidade de supressão viral.
Em relação ao tratamento e ao diagnóstico, o que temos de avanço hoje, quase 30 anos após o início da epidemia? Quais são as novas tecnologias para o tratamento das ISTs?
Na questão do HIV, hoje temos os testes rápidos disponibilizados em várias unidades, em 645 municípios do Estado de São Paulo e em vários municípios do país. De novidade estamos trazendo para a capital o autoteste, também em parceria com o Ministério da Saúde. Ele possibilita que a pessoa realize o teste no próprio domicílio.
Algumas pessoas ainda têm medo. A gente nem falou anteriormente, mas um problema enorme que ainda vivemos é a questão do preconceito, da discriminação que as pessoas que vivem com HIV ainda sofrem. Então essa questão também está bem presente para nós.
De atualização no que diz respeito aos medicamentos antirretrovirais tivemos há bem pouco tempo a integração do Dolutegravir, que sem dúvida nenhuma, de acordo com diversos estudos, é o melhor medicamento que para ser utilizando na primeira linha e também no resgate das pessoas que já passaram por outros esquemas. Então a PrEP já está disponibilizada em quase 50 municípios e é destinada a populações mais vulneráveis.
Com a posse do novo presidente em janeiro, qual é a perspectiva?
Tivemos alguns posicionamentos do presidente eleito Bolsonaro em alguns momentos de campanha, ou até mesmo antes, que causaram e continuam causando preocupações nas pessoas que vivem com HIV e nas pessoas que fazem parte da nossa população mais vulnerável. Mas nós, enquanto profissionais da saúde, acreditamos que temos uma resposta muito bem organizada no nosso país. O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma estratégia superimportante e é lógico que nesse momento mostrar que o programa vai bem, que é reconhecido internacionalmente como um programa de sucesso, é importante e estratégico.
A garantia de direitos no que diz respeito à população LGBT é importante para que a gente possa aprimorar as nossas respostas. Algumas falas do presidente deixam nossa população, e até mesmo as pessoas que vivem com HIV, num estado de preocupação, mas, ao mesmo tempo, precisamos estabelecer diálogo com o presidente. É fundamental que a gente não tenha prejuízo numa resposta que foi construída há mais de 30 anos.
No período de 1995 a julho de 2012, foi dada uma prevalência reagente ao HIV de 0,6%, acima da esperada para a população em geral. Você pode falar sobre esse dado?
O estudo de prevalência do HIV na população em geral é de 0,4%, 0,5%, 0,6%, são dados bem baixos. O que a gente tem é que em algumas populações esses dados são muito maiores, como nas populações de profissionais do sexo, usuários de drogas, gays, negros e também as travestis e as mulheres transexuais.
Trabalhar com essas populações mais vulneráveis é ter garantia de direitos. Precisamos discutir essa questão com a sociedade, garantir direitos para falar com essa população e garantir estratégias de prevenção que levem diagnósticos para as pessoas mais vulneráveis.
Eu acredito nesse trabalho com a educação, em que a gente pode discutir o tema. Todas essas questões são possíveis de serem discutidas no espaço da escola, a partir do momento em que a comunidade escolar também participe.
Ao longo do tempo isso tem acontecido e é um trabalho no qual a área de saúde daquela comunidade se envolve com a escola, se envolve com a comunidade escolar e pode sim, discutir questões que passam pelo tema educação, como orientação sexual e identidade de gênero. É nesse espaço que acreditamos que essas questões também precisam acontecer.
O perfil das pessoas infectadas no Brasil está mudando?
No que diz respeito às pessoas que vivem com HIV, temos uma diminuição do número de casos entre as mulheres e um aumento no número de casos entre os homens jovens até 30 anos, onde a epidemia atinge principalmente os gays.
O número de casos entre as mulheres diminuiu, mas entre as mulheres negras a gente percebe que essa redução não se dá na mesma velocidade do que entre as brancas. Então temos uma questão que também precisamos tratar, que é a do racismo e da dificuldade dessas populações a acessarem os serviços de saúde.
Nos preocupa essa questão do HIV e da Aids atingindo a população de menor poder aquisitivo e a população negra. Não estamos falando em grupo de risco, nós estamos falando de populações mais vulneráveis. Nesse momento, discutir as garantias de direitos dessas populações é estratégico.
Para os próximos anos, existe algum indicativo de aumento da prevalência do HIV no país?
É difícil a gente trabalhar em termos para os próximos anos. Um conceito que a gente tem hoje é que, se é indetectável, é intransmissível. Então, quanto mais as pessoas que são portadoras do HIV estiverem nos serviços de saúde, seguindo os medicamentos antirretrovirais, tomando seus medicamentos de forma correta e contínua, a gente vai diminuir a carga viral e diminuir novas transmissões.
Então, em uma sociedade na qual se tenha essa garantia dos direitos, onde incorporem a tecnologia e a qualidade dos serviços de saúde, eu acho que podemos ter uma resposta cada vez melhor.
Qual a importância de movimentos como o Dia Mundial de Combate à Aids para os médicos que atendem esses pacientes?
Para nós, o Dia Mundial de Combate à Aids é um símbolo. Hoje temos no nosso país o dezembro vermelho, não só o Dia Mundial de Combate à Aids, mas todo o mês deve ser para que atividades sejam realizadas, para que uma pessoa que vive com HIV possa ter seus direitos também garantidos. Ainda vivemos em uma sociedade na qual as pessoas que vivem com HIV sofrem sim, preconceito e discriminação.
Então neste Dia Mundial de Combate à Aids, estamos indo para a 11° campanha, onde ofertamos diagnósticos, testagem, além de discutirmos questões de preconceito, discriminação e sobre o direito das pessoas mais vulneráveis e das pessoas que vivem com HIV/Aids.