Neste 12 de maio, Dia Internacional da Enfermagem, o Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) reforça seu apoio à luta dos profissionais da enfermagem contra a precarização do trabalho na saúde. Em entrevista ao sindicato, a enfermeira e servidora pública municipal Ana Paula Pereira Teixeira falou sobre os desafios enfrentados pela categoria, como jornadas exaustivas, terceirização, adoecimento mental e a luta histórica pelo piso salarial e pela valorização profissional.
Segundo Ana Paula, a pandemia evidenciou a importância da enfermagem para o funcionamento do sistema de saúde, mas os reconhecimentos públicos não se converteram em melhores condições de trabalho. “Fomos chamados de heróis, fomos linha de frente no atendimento e na vacinação. Mas, quando a pandemia acabou, os heróis também acabaram. Hoje seguimos lutando contra a precarização, pela redução da jornada e pelo piso salarial”, afirma.
Confira a entrevista.
Simesp: Como você avalia as condições atuais de trabalho da enfermagem, especialmente após a pandemia?
Ana Paula Teixeira: A enfermagem luta contra a precarização desde sempre. A pandemia foi um marco para a categoria no mundo inteiro. Perdemos muitos colegas e estivemos na linha de frente em todos os momentos. Mas, depois da pandemia, vimos muitos retrocessos. Hoje seguimos lutando pelo piso salarial, pela redução da jornada e contra o avanço das organizações sociais, que precarizam ainda mais o trabalho da enfermagem.
Simesp: Qual retrocesso você considera mais alarmante atualmente?
Ana Paula Teixeira: Um dos maiores foi o que aconteceu com o piso nacional da enfermagem. Foi uma batalha enorme e ele acabou sendo considerado inconstitucional. Ainda seguimos nessa luta. Outro problema gravíssimo é a terceirização da saúde pública, que afeta toda a categoria da saúde, mas atinge fortemente a enfermagem, porque somos a maior categoria de trabalhadores da saúde no Brasil.
Simesp: Como a terceirização e a pejotização impactam a enfermagem?
Ana Paula Teixeira: Hoje já existe até quarteirização na saúde. Temos hospitais onde a organização social terceiriza a enfermagem por meio de cooperativas. É a precarização da precarização. E isso destrói um elemento essencial da saúde pública, que é o vínculo com a população. A alta rotatividade e a falta de isonomia salarial fazem com que muitos profissionais tenham dois ou três empregos.
Simesp: A enfermagem é frequentemente chamada de “espinha dorsal” da saúde. Como a sobrecarga aparece no cotidiano?
Ana Paula Teixeira: A enfermagem é majoritariamente formada por mulheres, muitas chefes de família, que acumulam dupla ou tripla jornada. É uma profissão extremamente extenuante. Muitos profissionais trabalham em escala 6×1 há décadas. Além disso, existem metas abusivas, violência contra trabalhadores da saúde e equipes reduzidas. O resultado é um aumento enorme do adoecimento mental da categoria. Hoje, os principais afastamentos da enfermagem são por questões de saúde mental.
Simesp: Quais os impactos da falta de profissionais nas equipes?
Ana Paula Teixeira: Muitas instituições privadas trabalham com quadro reduzido de enfermagem e não seguem as normas mínimas previstas. Isso afeta diretamente o cuidado prestado à população e também a saúde emocional dos trabalhadores. Você não consegue prestar a mesma assistência quando está sobrecarregado e sem equipe suficiente.
Simesp: Você acredita que médicos e enfermagem compartilham pautas em comum?
Ana Paula Teixeira: Sem dúvida. A principal pauta comum é a defesa de uma saúde pública, universal e de qualidade. E também o enfrentamento da precarização. Hoje os médicos também estão sendo pejotizados pelas organizações sociais. A precarização já atinge toda a saúde.
Simesp: Que mensagem você gostaria de deixar neste Dia Internacional da Enfermagem?
Ana Paula Teixeira: Primeiro, precisamos entender que somos todos trabalhadores. O que nos une é a luta pelo trabalho digno e por uma saúde pública de qualidade. A enfermagem precisa ser reconhecida como a espinha dorsal do cuidado. E esse reconhecimento passa por melhores salários, condições dignas de trabalho, direito ao descanso e redução das jornadas exaustivas. O 12 de maio não é só um dia de celebração, é também um dia de luta. Não fomos heroínas na pandemia. Somos trabalhadoras que seguem lutando.