O Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) manifesta sua profunda preocupação diante da ameaça de desocupação do Instituto Adolfo Lutz (IAL), instituição centenária e estratégica para a saúde pública brasileira, instalada há 134 anos em um complexo histórico na Avenida Doutor Arnaldo. O prédio principal, projetado pelo escritório Ramos de Azevedo, é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), integrando um conjunto arquitetônico que simboliza a história da ciência e da saúde pública paulista.
A intenção do governo Tarcísio de Freitas de retirar o Instituto de sua sede para viabilizar a implantação de um “Hospital Inteligente” – hospital tecnológico de alta complexidade focado em neurologia, cardiologia e neurocirurgia – ignora não apenas esse patrimônio histórico, mas também o papel insubstituível desempenhado pelo IAL na vigilância sanitária, epidemiológica e laboratorial do Estado de São Paulo. O novo “projeto” prevê gestão por organização social (OS), aprofundando um modelo de terceirização que o Sindicato tem denunciado reiteradamente por fragilizar as relações de trabalho, reduzir a transparência na gestão dos recursos públicos e comprometer a continuidade e a qualidade da assistência prestada à população.
A proposta de desocupação causa ainda maior perplexidade porque o complexo do Instituto recebeu, nos últimos anos, investimentos superiores a R$100 milhões em reformas e modernização de laboratórios, incluindo instalações de alta biossegurança e infraestrutura especializada para pesquisas e diagnósticos de elevada complexidade.
“A eventual transferência ou demolição de parte dessas estruturas, sem planejamento transparente e sem garantias concretas de continuidade das atividades, ameaça interromper pesquisas, comprometer diagnósticos estratégicos, desorganizar uma rede essencial para a resposta a epidemias e prejudicar diretamente a população paulista. Também preocupa a falta de diálogo com pesquisadores, servidores e profissionais que atuam diariamente na instituição, agravando a insegurança quanto ao futuro do Instituto e de seus serviços”, denuncia a diretora adjunta da Secretaria de Formação Sindical e Sindicalizações do Simesp, Heloana Marinho.
O Sindicato exige que o Governo do Estado suspenda qualquer medida que coloque em risco o funcionamento do Instituto Adolfo Lutz, assegure total transparência sobre o projeto em discussão e estabeleça diálogo efetivo com trabalhadores, pesquisadores e sociedade antes da adoção de qualquer decisão que comprometa uma estrutura essencial para a proteção da saúde coletiva. “O fortalecimento do SUS passa pela valorização de suas instituições públicas e de seus trabalhadores, e não pela substituição de estruturas consolidadas por modelos de gestão privatizados”, afirma Heloana.
Reconhecido pelo Ministério da Saúde como um dos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen) da Região Sudeste e referência nacional em diversas doenças, o Instituto realiza cerca de 600 tipos de exames e atua em áreas essenciais como vigilância de arboviroses, influenza, meningites bacterianas, coqueluche, botulismo, controle de alimentos, medicamentos, pesticidas e contaminantes ambientais, além de colaborar com organizações internacionais como a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Foi também protagonista no enfrentamento das principais emergências sanitárias das últimas décadas, incluindo a pandemia de covid-19.
O Simesp afirma ainda seu compromisso com a defesa da ciência, do Sistema Único de Saúde (SUS) e do patrimônio público. Modernizar a assistência em saúde é um objetivo legítimo, mas isso não pode ocorrer às custas do desmonte de uma instituição que há mais de um século constitui um dos pilares da vigilância em saúde no Brasil.