O trabalho rural foi o tema deste ano do evento A Medicina e a Condição Feminina, que o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) realiza, há 8 anos, no mês de março, alusivo ao Dia Internacional da Mulher. Entre as conclusões do encontro está a de que o trabalho rural da atualidade não é muito diferente do trabalho escravo legalizado no país até o século 19.
Coordenado pela conselheira Ieda Therezinha Verreschi, o evento foi aberto pelo presidente do Cremesp, Renato Azevedo Júnior. “A escolha do tema deste ano demonstra a preocupação do Conselho com os problemas sociais brasileiros”, afirmou ele. Ieda destacou que ao assumir o enfoque no trabalho rural – “que é árduo" – o Cremesp dá o exemplo de que a luta é de todos para galgar melhores condições de vida às mulheres do campo. “A intenção aqui é ter uma discussão interdisciplinar para podermos dar melhores soluções de saúde à mulher trabalhadora”, destacou a conselheira.
Cláudia Alessandra Tessari, professora do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), doutora em Desenvolvimento Econômico e mestre em História Econômica, falou sobre o tema Braços para a Colheita, que além de objeto de tese doutoral é título de livro de sua autoria. A pesquisa aborda o trabalho escravo no Brasil, a mão de obra imigrante e migrante nacional do nordeste, mas com foco no trabalho temporário nas colheitas de café e de cana-de-açúcar do século 19 ao 20.
Agnaldo Gomes, doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), falou sobre A Mulher na Liderança Sindical, abordando a história de Carlita da Costa, trabalhadora rural e dirigente do Sindicato dos Empregados Rurais de Cosmópolis. Agnaldo, que aos 12 anos começou a trabalhar em canaviais como “boia-fria” para sustentar a família, falou também sobre sua impressionante história de vida e de como mudou seu destino. “Queria estudar, ser doutor e o tema de meu estudo já estava definido, seria a vida do boia-fria, para voltar lá e provar para os outros que mudar é possível”. O psicólogo apresentou dados sobre a realidade atual dos trabalhadores volantes, que individualmente chegam a cortar 12 toneladas de cana por dia – mas há relatos de casos em que chegam a 30 toneladas –, têm em média 30% da produção roubada na hora da contagem e vida útil de 15 anos. Além disso, estimula-se a concorrência, quem produz mais pode ganhar uma corrente de ouro.
A médica Maria do Espírito Santos Tavares dos Santos, do Conselho Nacional de Saúde, falou sobre a saúde da mulher trabalhadora, destacando que a condição feminina, título do evento, perpassa todas as especialidades da Medicina.
O professor associado da Unifesp, Francisco Antonio de Castro Lacaz, que foi o mediador do encontro, comentou as palestras ao final das apresentações. “Tirar da sombra o trabalho volante mostra que não estamos muito distantes do trabalho escravo”, afirmou.
Também participaram do encontro os presidentes da Associação Paulista de Medicina, Florisval Meinão; e do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Cid Carvalhaes.