O disco solo de Juçara Marçal é o suprassumo da Música Popular Brasileira, uma verdadeira pororoca de tudo que mais tradicional tem em nossa música local e de influências e momentos pontuais, de estilos variados como o math rock e o throat singing. A Vanguarda Paulista pode ter sido um movimento restrito a uma época e lugar, mas os conceitos ainda vivem fortes, fundidos de maneira impecável em “Encarnado”
Os mais de vinte anos de carreira, e principalmente a parceria com o “unsung hero” Kiko Danucci, que rendeu discos e projetos infindos, depõe a favor de Juçara. Tudo parece ser um degrau, elevando a percepção e cuidado ao máximo em “Encarnado”.
A medida que os anos foram passando, sempre vim pregando o quanto a produção nacional nunca deveu nada para a estrangeira, temos nossos nomes fortes na música eletrônica, no cenário experimental, no rock – post-rock, shoegaze, pop/rock, etc. – e talvez nossa música pop seja muito característica e própria para julgarmos, ainda mais comparando com as tabelas de hits estrangeiros. Mas um movimento “recente”, capitaneado pelas bandas que servem de background para o disco solo de Juçara Marçal – Metá Metá e Passo Torto, traz uma fagulha de brilho no horizonte para a nossa Música Popular Brasileira, seja lá o que isso quer dizer em 2014.
“Encarnado” soa como um disco de MPB, um disco de samba, um disco de jazz, um disco extremamente dinâmico, tocado por gente cuja criatividade vai muito além de rótulos que possam aqui ser colocados. A ausência de percussão só é notada passados muitos minutos de música, as cordas, sopros e mudanças bruscas em melodias e tempo, herdeiras do math rock dos anos 90 e suas fortes raízes no jazz, fazem o trabalho percussivo muito eficientemente. Nomes como Patife Band, Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Letícia Garcia, entre outros, devem surgir na mente dos ouvintes. É o som do Brasil passando a frente do mundo mais uma vez. Que não seja mais um som de vanguarda, que não seja mais um som para gringo ouvir. O mundo precisa ouvir “Encarnado”, mas principalmente o Brasil precisa ouvir “Encarnado”.
Citando a canção “Damião” (Douglas Germano), “Dá neles, Damião! Dá sem dó nem piedade e agradece a bondade e o cuidado de quem te matou”, o recado para a música, crítica e ouvinte brasileiros está dado e gravado.