Presidente do Simesp e psiquiatra defende o cuidado em liberdade, critica retrocessos na política de saúde mental e afirma que a luta antimanicomial hoje também passa pelo combate à medicalização da vida e ao estigma
No dia 18 de maio, o Brasil celebra o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, data que marca a defesa de um modelo de cuidado em saúde mental baseado na liberdade, na garantia de direitos e na integração social das pessoas em sofrimento psíquico.
Para o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) e psiquiatra Augusto Ribeiro, a discussão sobre saúde mental no país vive hoje um momento complexo, marcado tanto pelos avanços conquistados com a reforma psiquiátrica quanto por novos desafios e retrocessos.
Em entrevista ao Simesp, Ribeiro afirma que o modelo manicomial clássico perdeu força ao longo das últimas décadas, mas alerta que práticas de isolamento, exclusão e violação de direitos ainda persistem, especialmente com o avanço das comunidades terapêuticas e do subfinanciamento da rede pública de atenção psicossocial.
O psiquiatra também chama atenção para o crescimento da medicalização da vida cotidiana e para a permanência do estigma associado ao transtorno mental.
Simesp: O Dia da Luta Antimanicomial costuma trazer o lema “por uma sociedade sem manicômios”. Em 2026, o que essa frase significa na prática para a saúde pública brasileira?
Augusto Ribeiro: A realidade que a gente tem hoje é muito diferente daquela dos anos 1960 e 1970, quando o movimento antimanicomial surge com força. Naquele período, o cuidado em saúde mental era muito baseado na internação, no “asilamento” e numa lógica higienista de retirar pessoas consideradas indesejadas da convivência social.
A reforma psiquiátrica brasileira foi muito importante para mudar formalmente esse paradigma e estabelecer o cuidado em liberdade, integrado à rede de atenção psicossocial e ao SUS. Mas isso não significa que o problema tenha sido totalmente superado.
Hoje, parte importante da luta antimanicomial também passa pelo enfrentamento da medicalização da vida. Existe uma tendência crescente de transformar problemas sociais, afetivos e cotidianos em diagnósticos médicos e soluções medicamentosas. Isso virou um tema central no debate sobre saúde mental. Ao mesmo tempo, seguimos convivendo com retrocessos importantes e com a permanência de práticas de exclusão e isolamento.
Simesp: Quais retrocessos o Brasil vive hoje na política de saúde mental?
Augusto Ribeiro: A gente tem visto um avanço muito forte das comunidades terapêuticas, especialmente no cuidado relacionado ao uso de álcool e outras drogas.
Existe um problema grave de saúde pública relacionado ao abuso de substâncias e, diante da dificuldade histórica de enfrentar isso com políticas estruturadas, surgem propostas de solução fácil. E muitas dessas propostas retomam justamente a lógica de retirar essas pessoas do espaço público e isolá-las da sociedade.
O problema é que muitas comunidades terapêuticas sequer contam com profissionais de saúde e, ainda assim, recebem financiamento público. Isso representa um retrocesso porque retira novamente o cuidado em saúde mental do campo da saúde e recoloca esse cuidado em instituições marcadas por isolamento, violação de direitos e ausência de acompanhamento adequado.
Os próprios relatórios do Conselho Federal de Psicologia mostram situações de violência e violações de direitos humanos dentro dessas instituições.
Simesp: Por que um psiquiatra falar sobre luta antimanicomial ainda causa estranhamento em alguns setores?
Augusto Ribeiro: Porque historicamente parte do movimento antimanicomial assumiu uma postura antipsiquiátrica. Às vezes surge a interpretação de que lutar contra o manicômio significa defender o fechamento de todos os leitos psiquiátricos ou até negar a própria psiquiatria.
Mas essa é uma simplificação perigosa. A própria reforma psiquiátrica brasileira não propõe o fim da assistência psiquiátrica nem o fim das internações. O que ela propõe é que a prioridade seja o cuidado comunitário, em liberdade e integrado ao SUS.
Quando a internação for necessária, ela deve acontecer pelo menor tempo possível e, preferencialmente, em hospitais gerais, justamente para evitar a lógica do isolamento permanente.
A luta antimanicomial não significa ausência de cuidado. Ela significa mudança de paradigma no cuidado em saúde mental.
Simesp: O estigma ainda é um dos principais desafios?
Augusto Ribeiro: Sem dúvida. O estigma talvez seja um dos maiores adversários da luta antimanicomial.
Enquanto existir a ideia de que a pessoa com transtorno mental é perigosa, incapaz ou precisa ser afastada da sociedade, continuará existindo algum tipo de manicômio. O manicômio não é apenas o prédio físico. Ele também é uma lógica social de exclusão.
Ao mesmo tempo, existe uma contradição interessante hoje: de um lado, ainda há muito preconceito contra pessoas com transtornos mentais graves; de outro, há uma expansão enorme da linguagem psiquiátrica sobre a vida cotidiana.
As pessoas passaram a se identificar diretamente com diagnósticos, muitas vezes transformando sofrimentos comuns da vida em categorias psiquiátricas. Então temos, ao mesmo tempo, o estigma e a medicalização excessiva da vida social.
Simesp: Qual a importância de entidades como o Simesp participarem desse debate?
Augusto Ribeiro: A luta antimanicomial não é apenas uma pauta da psiquiatria ou da psicologia. Ela é uma discussão sobre modelo de sociedade, direitos humanos e políticas públicas.
Defender o cuidado em liberdade, fortalecer a rede pública de atenção psicossocial e combater retrocessos nas políticas de saúde mental também faz parte da defesa do Sistema Único de Saúde (SUS).
E isso exige financiamento adequado, valorização dos profissionais de saúde e compromisso com uma política pública baseada em evidências científicas e respeito aos direitos humanos.