04/06/2021 | Notícia Simesp

Carta dos médicos da Atenção Primária à Saúde aos usuários do SUS


Caros usuários,

Nós, médicos da Atenção Primária à Saúde (APS) que atuam em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Saúde da Família (USF), lutamos para que os nossos pacientes tenham atendimento digno e de qualidade. Nas UBS e USF, são realizadas consultas para acompanhamento de doenças crônicas (como hipertensão e diabetes), pré-natal, seguimento de crianças desde seu nascimento, exames de prevenção do câncer de colo de útero, visitas domiciliares a pacientes acamados, grupos de educação em saúde, atividades para prevenção de doenças, vacinação, além de encaminhamentos para outras especialidades e solicitações de exames de maior complexidade. Ou seja, a APS é a ponta inicial da rede de atenção à saúde para todos aqueles que utilizam o SUS.

Atualmente, temos 15 minutos destinados a cada consulta e somos obrigados a bater a meta de, pelo menos, quatro pacientes por hora – chegando a 8 pacientes por hora em algumas unidades. Esse tempo é claramente insuficiente para suprir as demandas dos usuários. Muitas pessoas chegam a esperar meses na fila para uma consulta de tempo ínfimo e repleto de interrupções, o que nos impede de prestar um atendimento que preze por qualidade e dignidade.

Nós estamos aqui para exigir que tenhamos mais tempo disponível para o atendimento aos nossos pacientes. Mas fiquem alertas! Os gestores municipais podem argumentar que nossa reivindicação irá diminuir o número de vagas na agenda, porém isso não é verdade. A assistência está deficitária por causa da falta de investimentos em saúde pública, o que resulta em número de profissionais reduzidos, poucas unidades básicas, ausência de infraestrutura adequada, além da escassez de materiais e equipamentos essenciais para o atendimento decoroso. Além disso, muitas unidades têm sua administração terceirizada para Organizações Sociais (OS), que limitam os exames possíveis de serem solicitados pelos médicos da APS. Até mesmo um simples e importante ecocardiograma é vetado ao profissional.

O tempo de consulta reduzido, associado a uma sobrecarga das agendas e elevada demanda das unidades, implica no ambiente de trabalho insalubre para todos nós, provocando um ciclo vicioso de sobrecarga, afastamentos e desfalques nas equipes. Nesse âmbito, é importante ressaltar que os cargos podem ficar anos sem preenchimento, uma vez que a maioria dos trabalhadores não aguenta permanecer mais do que 24 meses sob esse regime ou estão afastados por problemas relacionados ao esgotamento.

A pandemia veio para escancarar essa situação precária. Apesar da pouca divulgação, as unidades de saúde têm cumprido papel fundamental ao realizar os exames diagnósticos de COVID-19, orientar a população quanto aos cuidados em relação à pandemia, acompanhar os casos leves e seus comunicantes, além de encaminhar os casos moderados aos graves para os locais adequados, e ainda, nos últimos meses, realiza a vacinação da população contra a COVID.

Nesse cenário, houve a paralisação prolongada de consultas no SUS, o que acabou por acumular ainda mais a demanda assistencial à população. Soma-se a isso: o recente fechamento de alguns prontos-socorros, devido à hiperlotação dos leitos, com redistribuição dos usuários para UBS; e a redução de força de trabalho, por causa do afastamento dos profissionais que compõem grupos de risco e dos infectados pela COVID-19 (sem qualquer reposição pelas OS); além dos que, infelizmente, faleceram da doença.

Pelas razões aqui expostas, pedimos a ajuda da população. Precisamos nos unir para garantir o atendimento merecido e digno. Convidamos toda a comunidade a lutar conosco, pelo aumento do tempo de consultas, por infraestrutura apropriada, pela contratação de mais profissionais, por condições de trabalho salubres, pela ampliação da rede de atenção primária, pelo atendimento de excelência a toda população!

Não deixe de participar do Conselho Gestor de sua região e de se colocar contra as tentativas de privatização e terceirização do SUS. Exija mudanças em canais de ouvidoria ou diretamente na gerência. Converse com seu médico, ele te trará mais informações. E, claro, exercite seu pensamento crítico: converse com as pessoas ao seu redor, exponha os abusos e, se possível, divulgue este documento.

Agradecemos por ter lido até aqui. Contamos com vocês para construir um sistema de saúde funcional, digno e cada dia mais seguro para os seus profissionais e usuários.

 

Médicos da Atenção Primária à Saúde



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