Com apagões frequentes, escassez de insumos e dificuldades no funcionamento de hospitais e UTIs, entidades brasileiras se mobilizam para arrecadar recursos destinados à compra de medicamentos e placas solares para a ilha
O Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) passou a integrar duas campanhas de solidariedade ao povo cubano: uma voltada ao financiamento de medicamentos e outra para placas solares para hospitais e unidades de saúde da ilha. As iniciativas ocorrem em meio ao agravamento da crise energética e sanitária em Cuba, cenário associado ao endurecimento do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e aos impactos sobre o funcionamento do sistema público de saúde.
As campanhas apoiadas pelo Simesp arrecadam recursos via PIX para compra de medicamentos e equipamentos de geração solar. Parte dos envios já foi realizada, e novas remessas estão em preparação. Entre os medicamentos mais demandados estão antibióticos e remédios para hipertensão. Para doar para a campanha de medicamentos, os valores devem ser enviados para o PIX/CNPJ 11.586.307/0001-65 (Instituto Cultivar) e para a de placas solares, o PIX/CNPJ 34.131.511/0001-64 (Câmara Empresarial Brasil-Cuba).
Segundo alerta recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), Cuba enfrenta uma situação preocupante no abastecimento de medicamentos, insumos hospitalares e infraestrutura energética, com impactos diretos sobre o atendimento médico e a manutenção de serviços essenciais. Hospitais têm convivido com cortes prolongados de energia elétrica, escassez de combustível e dificuldades para realização de cirurgias, funcionamento de UTIs e conservação de medicamentos.
Para o sindicato, a participação nas campanhas representa um gesto de solidariedade internacional diante de um cenário que afeta diretamente profissionais da saúde e o acesso da população cubana a cuidados médicos básicos. “Quando um sistema de saúde sofre com falta de medicamentos, cortes de energia e dificuldades para manter atendimentos básicos, estamos falando de profissionais impedidos de exercer plenamente o cuidado e de populações inteiras privadas do direito à saúde. Apoiar essas campanhas é também defender a vida, o trabalho médico e a saúde pública como direitos universais”, afirma Heloana Marinho, diretora adjunta da Secretaria de Formação Sindical e Sindicalizações do Simesp.
Entenda a situação em Cuba
De acordo com Giovanni Benito Mena del Prete, membro da Secretaria Continental da ALBA Movimentos, o bloqueio econômico vem produzindo um processo contínuo de asfixia das condições de vida da população cubana, atingindo diretamente a saúde pública. “O tema da energia hoje é central. Sem combustível, você compromete o funcionamento dos hospitais, a realização de cirurgias, o atendimento em UTIs e até a produção de alimentos. Cuba chegou a enfrentar apagões superiores a 24 horas, inclusive em Havana, onde estão concentrados os principais serviços de saúde do país”, afirma.
Segundo ele, o cenário se agravou após o endurecimento das sanções econômicas dos Estados Unidos, especialmente relacionadas ao fornecimento de petróleo. A Venezuela, sob o comando de Donald Trump, deixou de abastecer a ilha. Atualmente, o país depende de importações para manter parte significativa de sua matriz energética, enquanto enfrenta restrições comerciais que dificultam o acesso a combustível, equipamentos médicos e medicamentos básicos.
Além da arrecadação para compra de medicamentos, uma das campanhas busca financiar a instalação de placas solares em hospitais e escolas cubanas, como alternativa para minimizar os impactos da crise energética sobre os serviços essenciais. A prioridade, segundo os organizadores, é garantir funcionamento mínimo de setores sensíveis, como UTIs, maternidades e áreas de geriatria. “A campanha das placas solares tem um objetivo humanitário muito concreto, que é manter funcionando áreas hospitalares críticas. Estamos falando de locais que não podem ficar horas sem energia”, explica Giovanni.
Ele destaca ainda que Cuba mantém, historicamente, programas de cooperação médica internacional e teve papel relevante durante a pandemia de Covid-19, inclusive com o desenvolvimento de vacinas próprias e envio de brigadas médicas a outros países.
“Mesmo enfrentando mais de 60 anos de bloqueio, Cuba produziu cinco vacinas durante a pandemia e manteve ações internacionais de cooperação médica. Hoje, vemos um país que historicamente contribuiu para o atendimento em regiões vulneráveis enfrentando enormes dificuldades para manter seu próprio sistema funcionando”, afirma.