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As vantagens e os perigos do esquecimento

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08/07/2011 | Notícia Simesp

As vantagens e os perigos do esquecimento

Se As Teorias Selvagens (Benvirá), obra de Pola Oloixarac, critica a ultraesquerda argentina, o novo romance do autor com quem ela divide mesa hoje às 15 h na Flip, o angolano valter hugo mãe, vê com estranheza a tendência portuguesa de se voltar para a extrema direita. A questão política aparece com ênfase em A Máquina de Fazer Espanhóis, que acaba de sair pela Cosac Naify, embora a trama, uma homenagem ao pai do escritor, morto em 2000, gire em torno de velhice e esquecimento. Na entrevista, feita na Pousada do Pardieiro, onde hugo mãe está hospedado em Paraty, ele fala de sua obra.

O romance homenageia seu pai, que, no entanto, morreu antes de chegar à idade do protagonista. Como foi isso?

Quando meu pai faleceu, há 11 anos, percebi que aquilo havia de ser transformado em literatura de alguma forma, só precisava de um tempo para que pudesse ser abordado sem ser demasiado penoso, sem ser emudecedor. A Máquina de Fazer Espanhóis foi o modo que encontrei de transformar o lugar vazio do meu pai em livro. O livro, contando a história de um homem de 84 anos, não pretende ser factualmente a vida que o meu pai queria. Aquele personagem, o Antonio Silva, não é o meu pai. Mas, ao fazer esse exercício de pensar na terceira idade, num homem de 84 anos, eu de alguma forma convivi com as questões da terceira idade que devia ter vivido diretamente com a vida do meu pai e não pude.

No livro, há a defesa da perda de memória como preparação para a morte…

Vejo o esquecimento como preparação no sentido de que vamos deixando as coisas as poucos, permitindo que algumas coisas desapareçam, se tornem desimportantes para nós. Talvez seja mais fácil que deixemos tudo pelo caminho antes da partida. Por isso, a reclamação que o livro faz de que, com a morte de alguém, também o amor devia acabar, para que o sofrimento não existisse.

Mas o esquecimento também tem a ver com a memória política, não?

O esquecimento entra muito no contexto da memória política, das memórias que temos de Salazar. Muitas coisas estarão a voltar porque as pessoas não se lembram de como foi. Uma das coisas mais perigosas numa sociedade tem que ver com reincidir em erros historicamente assimilados, atrocidades tremendas que a história ostenta, mas o povo esquece e comete de novo. Salazar vem sendo largamente recuperado no pensamento da gente. Algumas de suas ideologias mais hediondas começam a ressurgir em gente mais nova e mais velha. Por todo o lado na Europa, essas ideias, que mostram uma necessidade totalitarista, de fechar as barreiras para que sejamos puros, vão surgindo à boca fechada. As pessoas sabem que está errada, que é um pensamento terrível, mas, dentro das suas casas, isso vai ressurgindo. Frustra-me que países europeus estejam se voltando à extrema direita com um pensamento racista, xenófobo. A desculpa é arranjar trabalho para nosso povo. Mas, a partir disso, temos um presidente que no Dia de Portugal diz que é o dia da raça portuguesa. O que significa dia da raça portuguesa?

Por que a mulher tem presença sempre forte nos seus livros, mesmo que não pareça à primeira vista?

Tenho um romance que está para sair pela Cosac chamado O Apocalipse dos Trabalhadores (além desse, a 34 lançou O Remorso de Baltazar Serapião e publica ano que vem Nosso Reino), cuja história é toda contada a partir das preocupações de duas mulheres simples cujo anseio é que os produtos de limpeza funcionem sozinhos. E o apocalipse tem a ver com o fato de não conseguirem dar conta do trabalho e serem pagas miseramente e violentadas pelos patrões, tidas quase como bichos. É um livro muito feminino. Pertenço a uma família de mulheres, quase, porque, além da minha mãe, tenho duas irmãs e um irmão, mas meu irmão sempre foi aquela coisa meio azeite comigo. eu seria a água, e as três mulheres seriam as figuras formadoras. Cresci com um olhar feminino. Já A Máquina de Fazer Espanhóis é uma conversa de homens. Há uma frase estranha no livro sobre a qual ninguém nunca fala. Diz qualquer coisa como: "Esperava que a revolução e a democracia acontecessem pelo menos aos homens, ainda que não pudessem ser dadas às mulheres". Isso é violento. mostra um pensamento que era normal no salazarismo, porque a ditadura sempre foi uma coisa dos homens.

Verdade que seu próximo romance será com maiúsculas (os quatro primeiros são todos em minúsculas)?

Sim, muitas, todas que tenho direito. A Máquina de Fazer Espanhóis fecha um ciclo. São quatro romances em que de assuntos diferentes vejo uma vida completa. Até o meu nome com caixa alta. Muita gente vai ficar confusa, acho.