A greve dos servidores municipais de Florianópolis, encerrada no último dia 15 de maio após 23 dias de paralisação, expôs problemas que médicos da Atenção Primária à Saúde (APS) também vêm denunciando em São Paulo: sobrecarga de trabalho, precarização dos vínculos empregatícios, desmonte de equipes e dificuldades crescentes para manter a qualidade do atendimento prestado à população.
O movimento, organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis (Sintrasem), atingiu setores da saúde e da educação e teve entre seus principais focos a situação da APS na capital catarinense. A categoria reivindicava recomposição salarial, valorização profissional e melhoria das condições de trabalho nas unidades da rede pública.
O encerramento da greve ocorreu após mediação judicial e apresentação de proposta pela Prefeitura. Segundo informações divulgadas pela imprensa local, foram acordadas medidas como reposição salarial e revisão de punições aplicadas durante a paralisação. Ainda assim, a administração municipal manteve a demissão de mais de 200 trabalhadores temporários contratados durante o movimento.
Os problemas enfrentados em Florianópolis dialogam diretamente com o cenário recente da Atenção Primária em São Paulo. Nos últimos meses, médicos da Estratégia Saúde da Família e da APS denunciaram demissões em massa, insegurança contratual e enfraquecimento das equipes em unidades da rede municipal. Os profissionais relatam que o avanço de modelos de contratação mais precários e a redução de equipes têm ampliado a sobrecarga de trabalho e comprometido a continuidade do cuidado oferecido à população.
Para o diretor de relações sindicais e associativas do Simesp, Guilherme de Sousa Barbosa, os episódios refletem um processo nacional de fragilização da Atenção Primária à Saúde. “A APS é a principal porta de entrada do SUS e um dos pilares mais importantes para garantir prevenção, acompanhamento contínuo e redução das desigualdades no acesso à saúde. O que vemos hoje é um processo sistemático de sucateamento, com equipes sobrecarregadas, vínculos precários e perda de capacidade de atendimento à população”, afirma.
Segundo Guilherme, o enfraquecimento da Atenção Primária produz impactos em toda a rede pública de saúde. “Quando a APS perde capacidade de atuação, todo o sistema sofre. A Atenção Primária resolve a maior parte das demandas de saúde da população, reduz internações e organiza o cuidado. Sem investimento, valorização profissional e condições dignas de trabalho, o SUS perde eficiência e a população fica mais vulnerável”, destaca.
O Simesp vem acompanhando denúncias semelhantes em municípios como Rio de Janeiro e São Bernardo do Campo, onde trabalhadores relatam redução de equipes, sobrecarga, dificuldades para manutenção dos serviços e defasagem salarial. Para entidades e profissionais da saúde, os episódios refletem um cenário nacional de fragilização da saúde pública e das condições de trabalho no SUS com consequências diretas à qualidade do serviço ofertado à população.