Após pelo menos uma década de negociações salariais marcadas pela busca da reposição da inflação, os médicos decidiram que é hora de reivindicar também aumento real. Em assembleia realizada no dia 15 de setembro, médicas e médicos aprovaram a proposta de reajuste de 10% nos salários dos profissionais em regime CLT da capital e do interior paulista. A reivindicação supera a inflação acumulada nos 12 meses anteriores, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que ficou em 3,98%; enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 4,22%.
Repor a inflação significa apenas impedir que o salário perca ainda mais poder de compra. Se os preços sobem 3,98% e o salário é reajustado pela mesma porcentagem, por exemplo, o reajuste apenas compensa o que ficou mais caro naquele período. Neste ano, os médicos decidiram que a Campanha Salarial 2026/2027 deve ir além dessa reposição e reivindicar também ganho real, ou seja, com crescimento do salário acima da inflação. Por isso, o percentual aprovado pelos médicos foi de reivindicar 10%. Vale pontuar que apesar de a pandemia ter aumentado a sobrecarga de trabalho, o adoecimento físico e mental e até a morte dos profissionais, mesmo naquele período os médicos seguiram sem reajuste real em seus salários, potencializando um cenário de falta de reposição do poder de compra ao longo dos anos.
O mesmo percentual também é pedido para aumentar os pisos salariais. Os médicos também reivindicam vale-alimentação de, no mínimo, R$ 500 por mês e vale-refeição de, no mínimo, R$ 36,20 por dia efetivamente trabalhado para quem atua em unidades que não oferecem refeição em refeitório próprio. Os valores tomam como referência benefícios já conquistados por outras categorias da saúde, buscando igualar os direitos dos diferentes profissionais com atuação nos mesmos serviços.
Consultas com tempo adequado e proteção contra a pejotização
As condições em que o trabalho médico é realizado também estão no centro da campanha. Uma das propostas estabelece o tempo de duração mínimo de 20 minutos entre consultas, além de pelo menos 30 minutos para consultas de pré-natal e puericultura. “A reivindicação busca garantir tempo adequado para o atendimento e reivindica que o médico não seja penalizado quando a complexidade de um caso exigir que a consulta ultrapasse o horário previsto”, explica Victor Dourado, diretor do Simesp.
Outra prioridade aprovada na assembleia é criar uma barreira à pejotização no SUS, defendendo a contratação dos médicos com carteira assinada (CLT), nos serviços públicos geridos por entidades privadas. A pauta responde ao avanço de formas de contratação que retiram do profissional direitos previstos para quem possui vínculo de trabalho.
Também foram aprovadas como prioridade a gratificação para médicos que exercem a função de responsável técnico e a busca pela unificação da campanha salarial com outras categorias da saúde.
Mais tempo para cuidar dos filhos
Outro eixo importante da campanha é a ampliação dos direitos relacionados à maternidade e à paternidade. Os médicos reivindicam também a licença-maternidade de 180 dias, ou seis meses, e licença-paternidade de 30 dias, sem prejuízo da remuneração.
A proposta para as mães inclui ainda a possibilidade de emendar férias já adquiridas no período de licença e busca estabelecer regras específicas quando o recém-nascido precisa permanecer internado. Também está entre as reivindicações a criação de espaço adequado no local de trabalho para amamentação ou coleta de leite e uma licença-amamentação de 15 dias, mediante indicação médica.
“Os seis meses de licença para as mães acompanham o período recomendado para o aleitamento materno exclusivo, enquanto uma licença maior para os pais favorece a criação de vínculo com o bebê e uma divisão mais equilibrada dos cuidados. Nós entendemos que é contraditório que médicas e médicos orientem seus pacientes sobre a importância desses cuidados nos primeiros meses de vida, mas não tenham garantidas, em seus próprios vínculos de trabalho, as condições necessárias para seguir essas mesmas recomendações quando têm filhos”, afirma Thaís Tubero, presidente do Simesp.
A precarização dos vínculos de trabalho torna esse cenário ainda mais grave. Médicas contratadas como pessoa jurídica (PJ), por exemplo, não têm garantidos os direitos previstos para as trabalhadoras com vínculo formal, como licença-maternidade remunerada e os períodos destinados à amamentação após o retorno ao trabalho. Para Thaís, “assegurar condições para que mães possam amamentar e para que mães e pais participem dos cuidados nos primeiros meses de vida deveria ser uma garantia básica não apenas para profissionais da saúde, mas para todos os trabalhadores”.
O que acontece agora?
A pauta da Campanha Salarial 2026/2027 do Simesp abrange profissionais registrados em regime CLT que atuam em organizações sociais de saúde (OSs), hospitais, clínicas, laboratórios, empresas de medicina de grupo, santas casas e demais instituições filantrópicas de saúde.
Na assembleia, a categoria discutiu e aprovou a primeira proposta que será apresentada aos sindicatos patronais, dando início às negociações para a renovação das Convenções Coletivas de Trabalho (CCTs). Com a pauta aprovada, o Simesp inicia a negociação com os sindicatos que representam os empregadores. É nesse processo que serão discutidos reajuste, benefícios e demais condições que deverão integrar as novas Convenções Coletivas de Trabalho.
A CCT é o acordo negociado entre os sindicatos dos trabalhadores e dos empregadores que estabelece direitos válidos para toda a categoria abrangida por aquela negociação. Já a data-base é a data anual de referência para a renovação dessas condições. Para esta campanha, o Simesp propõe que, após um período de transição, a data-base dos médicos passe de 1º de setembro para 1º de maio, aproximando-a da de outras categorias da saúde e fortalecendo negociações conjuntas.