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Agenda cultural: Coordenador do Departamento dos Aposentados do Simesp lança livro coletivo e fala sobre a força da escrita na maturidade

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03/11/2025 | Notícia Simesp

Agenda cultural: Coordenador do Departamento dos Aposentados do Simesp lança livro coletivo e fala sobre a força da escrita na maturidade

O pediatra Osvaldo Martinez D’Andrade une medicina e literatura em uma trajetória que valoriza escuta, memória e afeto

Natural de São José do Rio Preto, o pediatra Osvaldo Martinez D’Andrade, de 66 anos, carrega na bagagem duas vocações que se cruzam – o cuidado com as pessoas e a paixão pela palavra. Médico e escritor desde a infância, ele encontra na literatura uma forma de expressão tão vital quanto o exercício da medicina. Atualmente à frente do departamento dos aposentados do Simesp, Osvaldo lança, ao lado de outros colegas, o livro Contos, Crônicas, Poesias, Sonhos e Memórias dos Velhinhos 60+, resultado da 24ª turma do Curso de Literatura e Escrita 60+ da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista exclusiva ao portal do Simesp, o médico fala sobre sua relação com a escrita, o diálogo entre medicina e literatura e o novo projeto coletivo, que será lançado no próximo dia 7 de novembro, às 19h, na Livraria Tapera Taperá (Galeria Metrópole (Av. São Luiz, 187 – 2º andar, loja 29, República, São Paulo).

Confira a conversa e o convite de Osvaldo para celebrar a escrita e a maturidade.

Simesp: O senhor tem uma carreira consolidada na medicina, especialmente na pediatria. Em qual momento a escrita começou a fazer parte da sua vida?

Osvaldo Martinez: A escrita faz parte da minha vida desde minha infância. Morador da roça, ainda criança, deitado no pasto, eu ficava contemplando as nuvens e tentando decifrar seus formatos e recados. As imagens desenhadas pelas nuvens impulsionaram e inspiraram minhas primeiras escritas. O fascínio de ler, decifrar e interpretar as nuvens era a matéria-prima para as minhas escritas. Eu criava diálogos entre os personagens que via nas imagens e as colocava no caderno a lápis. Elas tinham corpo, rosto, forma e falavam. Minhas primeiras crônicas foram escritas nessa época e ainda guardo alguns cadernos, com o que escrevia, rasurava, emendava, apagava e começava tudo de novo. Tempos depois, na época era chamado de ginásio, fiquei sabendo que ler o céu se chamava pareidolia.

 

Simesp: O que o levou a escrever? Foi algo que sempre o acompanhou ou surgiu mais recentemente, como uma forma de expressão pessoal?

Osvaldo Martinez: Para quem gosta de escrever, meu viver não é esquecer, pelo contrário, deve ser lembrado. Escrevo o que sonho, vivo e sinto, o que não é pouco e não tenho medo das palavras. Para quem gosta de escrever, tudo que se observa e ouve é matéria para a escrita. Eu tenho o hábito de mensalmente ir ao trabalho, pegar o ônibus e metrô para conversar e ouvir as pessoas e isso é matéria-prima para as minhas escritas. Recentemente, peguei o trem na Praça Antônio Menck, em Osasco, até a Barra Funda e daí até Caieiras para conversar, observar e ouvir as pessoas no seu dia a dia. Essa andança de trem, superlotado e cansativo, uma rotina que consome grande parte da vida do povo trabalhador, resultou na crônica “O Trem da Morte e Tempo para Viver”, que estão no livro que lançaremos no dia 7 de novembro. 

 

Simesp: Há algo na sua prática médica — talvez no contato com as famílias, com as crianças ou com o cotidiano hospitalar — que inspira a sua produção literária?

Osvaldo Martinez: Para quem gosta de escrever, repito, tudo é motivo e objeto de inspiração. Como médico e professor tenho contato diário com crianças e adolescentes, mães, pais, alunos e funcionários de diferentes origens e experiências de vida com o mundo. Esse contato, as conversas e o olhar clínico de um médico treinado para observar detalhes, interpretar e integrar informações, pode e deve ser objeto e inspiração para a escrita, percebendo o contexto emocional e social das pessoas. Isso pode ser uma rica fonte de material para a escrita. O contato direto com o sofrimento humano é uma fonte inesgotável de inspiração e reflexão literária.

 

Simesp: A medicina e a literatura lidam com vidas, histórias e emoções. Como o senhor enxerga a relação entre essas duas dimensões — o médico e o escritor — dentro de si?

Osvaldo Martinez: A medicina e a literatura lidam com a complexidade da vida. A literatura explora emoções, sofrimentos, anseios, medos e escolhas do ser humano e podem ser usadas numa visão mais ampla da humanidade. Ela serve para que os médicos possam trabalhar as histórias complexas que ele ouve no dia a dia dos pacientes. As histórias dos pacientes, por exemplo, podem ajudar na relação médico paciente. Essa dualidade entre ser médico e escritor exige conciliar a criatividade com as exigências do cuidado com as pessoas. 

 

Simesp: O senhor já tem obras publicadas, como “Todos os Gatos são Pardos” e “Confesso que Vivi na República Federativa da Mooca”. Quais memórias ou experiências o motivaram esses livros?

Osvaldo Martinez: Revisar a história, também é fazer história. Os meus últimos livros fazem parte de uma série de cinco, que acontecem num país imaginário chamado República Federativa da Mooca, são livros de ficção, de sonhos, memórias, realidade e história. Foi também o bairro que acolheu meus avós recém-chegados de Portugal. 

O primeiro livro, “Confesso que Vivi”, retrata o período do golpe militar de 1964; o segundo, “Sonhos que não se Apagam”, cobre os anos do AI-5; e o terceiro, “Nem Todos os Gatos São Pardos”, acompanha o país até o movimento das Diretas Já. O quarto e o quinto volumes — ainda inéditos — avançam até o golpe que afastou a primeira mulher eleita presidenta do país e o negacionismo durante a pandemia. A história da Mooca, bairro que me acolheu quando vim do interior para fazer residência, é o pano de fundo dessa saga sobre lutas, memórias e esperanças.

 

Simesp: Agora o senhor participa de uma coletânea ao lado de outros autores da turma de Literatura 60+ da USP. Como nasceu esse projeto e como foi o processo de criação coletiva? 

Osvaldo Martinez: O livro “Contos, Crônicas, Poesias, Sonhos e Memórias dos Velhinhos 60+” é uma obra coletiva escrita por oito autores da 24ª turma do Curso de Literatura e Escrita da USP. A paixão por transformar sonhos e memórias em palavras pulsa em cada página e a ousadia criativa de três escritores e cinco escritoras revela emoções, descobertas e instantes de pura magia. A escrita dos autores, que dá vida à coletânea, nasce do desejo de compartilhar experiências de vida com o mundo, mostrando que sonhar e se expressar não tem idade.

 

Simesp: Como o senhor enxerga o papel da escrita — especialmente na maturidade — para a saúde emocional, a autonomia e a alegria de viver?

Osvaldo Martinez: A palavra tem o poder de curar, de acolher e de transformar não só para quem lê, mas também para quem escreve os versos de uma poesia ou as linhas e parágrafos de uma crônica ou de um conto, sejam eles retratos de uma vida real ou de uma ficção. Escrevemos como quem respira, como quem escuta o silêncio do outro.

As autoras e os autores dessa coletânea sussurram histórias de amor, esperança e superação. São contos que revelam a poesia escondida nos detalhes do cotidiano e versos que elevam a alma. É um convite à reflexão sobre o tempo, os afetos e o sentido da vida.

Ao mergulhar nas escritas de “Contos, Crônicas, Poesias, Sonhos e Memórias dos Velhinhos 60+”, o leitor descobrirá que os sonhos não têm idade e que a literatura é sempre um terreno fértil para expressar, emocionar e transformar.

 

Serviço do lançamento – Lançamento e sessão de autógrafos
📖 Contos, Crônicas, Poesias, Sonhos e Memórias dos Velhinhos 60+
📍 Livraria Tapera Taperá – Galeria Metrópole (Av. São Luiz, 187 – 2º andar, loja 29, República, São Paulo)
📆 7 de novembro (sexta-feira)
🕖 19h