Guitar hero reconhecido por todo o mundo da música, Joe Perry está para Steven Tyler, no Aerosmith, como Keith Richards para Mick Jagger, nos Stones. Amigos desde a adolescência, gato e cachorro do rock’n’roll – vivem se bicando, mas não sabem viver separados. "Nas turnês, somos como irmãos, mas sempre há uma tensão no ar, rompida por momentos de êxtase e períodos de puro ódio", diz Tyler.
O Aerosmith volta ao Brasil para um único show no País, em São Paulo, na Arena Anhembi, no próximo dia 30. É a quarta passagem da banda pelo País. Além de Perry (61 anos) e Tyler (62 anos), o quinteto tem Brad Whitford na guitarra base, Tom Hamilton no baixo e Joey Kramer na bateria.
A banda vive uma espécie de renascimento. Depois de quase ter acabado, há dois anos, reorganizou-se e está a mil. Há duas semanas, Steven Tyler lançou no Brasil sua autobiografia, O Barulho na Minha Cabeça te Incomoda? (Benvirá). E o grupo já tem pronto um álbum inédito, a ser lançado em março. Joe Perry falou ao Estado por telefone, na semana passada.
Primeiro, todos gostaríamos de saber do seu novo disco. Joey Kramer disse que é um retorno à "old school" do Aerosmith.
Bom, depois de dois discos solo, a gente estava com fome de fazer um disco como esse. A repercussão de algumas pessoas que já ouviram o disco tem sido essa: todos dizem que é um disco cru, com certo grau de safadeza. Acho que têm razão, é um disco com uma vibração muito parecida àquela que nossos discos dos anos 1970 tinham. Nós fizemos tudo que normalmente fazemos. Mas é duro para mim dizer com o que se parece. Sairá em março, aí as pessoas dirão o que pensam dele.
Seu último disco, Honkin’ on Bobo, já foi lançado há 6 anos. Como você vê as novas tecnologias de estúdio que surgiram?
Sem dúvida, tornam as coisas mais fáceis para os músicos. A tecnologia inventou um monte de atalhos. Por outro lado, sempre depende de como você a usa. Se ela consegue capturar a sua energia, muito bem. Mas a vibração de uma banda no estúdio, tocando como se fosse ao vivo, sempre é muito difícil de captar. A tecnologia dá opções, mas é o nosso espírito que tem de estar afinado. Não gosto de certa tecnologia que te obriga a gravar de um certo jeito. Prefiro sempre aquela que você pode usar ou não, não é obrigado. Não acho que Steve Jobs tenha deixado um manifesto social, não o vejo como tão importante.
Em 2008, o Aerosmith quase acabou, vocês chegaram a pensar em fazer uma audição para um novo cantor. Como está hoje a relação com o Steven Tyler?
Boa. Tivemos um período de pausa, tentamos fazer coisas diferentes, pessoais. Eu gravei dois discos solo, ele aventurou-se na televisão, virou estrela de um show de TV. Mas ele ama a banda tanto quanto todos nós. Estamos 110% juntos. Pessoalmente, todos entendemos que agora nós temos outras obrigações, mas nada mudou em relação às nossas preocupações com o grupo. Sabemos que ele só existe se estivermos funcionando juntos.
Em agosto, o baixista Tom Hamilton foi operado de um câncer na garganta. Como está Hamilton neste momento?
Bom, está aqui a 10 passos de mim, nesse exato instante, e está ótimo. Foi operado, mas está 100% curado. Não se pode prever uma coisa como essa, mas Tom enfrentou com valentia e se recuperou rapidamente. Totalmente recuperado.
Você sempre menciona como suas influências nomes da velha escola do blues, como Muddy Waters. Ainda é influenciado por esses músicos?
Eles ainda são fundamentais para mim. Há muitas coisas novas acontecendo o tempo todo, mas ouvir aqueles caras é como voltar para as suas raízes. É como estar em um balão olhando tudo lá de cima. Muitas coisas aconteceram nesse último século, muita gente emulou Robert Johnson, mas ele continua importante. Eu fui mais influenciado pelos caras do blues elétrico, os caras de Chicago. Poderia citar Buddy Guy, Jimmy Reed, Willie Dixon. E, claro, B.B. King. Está com mais de 80 anos e na ativa. Quero ir no mesmo caminho. B.B. King não para porque não tem de parar. Ninguém tem de parar.