Formado pela Universidade Federal da Bahia, o neurocirurgião Júlio Pereira construiu seu caminho na medicina entre a curiosidade juvenil pelo funcionamento do corpo humano e a dureza da prática clínica.
Ao longo da residência, viveu de perto a rotina exaustiva, a carga emocional intensa e a falta de suporte psicológico que ainda marcam a formação médica no Brasil. Anos depois, como preceptor e especialista, passou a observar não apenas as dificuldades individuais dos residentes, mas também as falhas estruturais que adoecem gerações de médicos.
Nesta entrevista exclusiva ao Simesp, ele reflete sobre sua trajetória, comenta o impacto da sobrecarga de trabalho e aponta caminhos para uma residência mais humanizada e que não adoeça os futuros especialistas.
Simesp: Quando você ingressou na residência, quais foram os primeiros choques entre a graduação e a especialização?
Júlio Pereira: A graduação não prepara o estudante para o que é a residência. A escolha da especialidade é muito baseada em fantasia, pouco orientada, e quando você entra percebe que existe um mundo muito diferente do que imaginava. A carga horária é pesada em praticamente todos os serviços e há uma distância enorme entre o que está nas diretrizes oficiais e o que realmente acontece. É um choque físico e emocional.
Simesp: A carga horária e a intensidade do trabalho são apontadas como principais fatores de adoecimento. Essa foi também a sua percepção?
Júlio Pereira: Sem dúvida. A rotina é extremamente puxada: plantões longos, pressão por resultados, contato diário com casos graves e situações-limite. Na neurocirurgia isso é ainda mais intenso. E tudo acontece em um período da vida em que o médico ainda está se formando como pessoa. É muita responsabilidade com pouco suporte.
Simesp: E como os programas de residência lidam com o sofrimento emocional dos residentes? Há acolhimento?
Júlio Pereira: Muito pouco. Existe um receio de falar sobre sofrimento, como se reclamar fosse desrespeitar preceptores ou a instituição. Além disso, grande parte dos chefes e preceptores também não teve formação pedagógica ou psicológica. Eles são excelentes tecnicamente, mas não necessariamente preparados para orientar emocionalmente. Hoje já existe mais consciência, especialmente entre os residentes mais jovens, mas os programas ainda não acompanharam essa mudança.
Simesp: Você menciona questões estruturais, como a falta de formação docente e a ausência de políticas claras. O que precisaria mudar?
Júlio Pereira: Primeiro, reconhecer que existe um problema real. Muitos ainda repetem o discurso “na minha época era assim”, mas o mundo mudou. É preciso profissionalizar a preceptoria, inclusive com remuneração adequada. O residente não pode depender apenas da boa vontade de quem gosta de ensinar. Também é fundamental criar espaços formais de apoio psicológico e monitoramento da carga horária. Em outros países, como os Estados Unidos, os limites de horas são rigidamente controlados porque impactam inclusive na segurança do paciente.
Simesp: Há diferenças importantes quando comparamos com modelos internacionais?
Júlio Pereira — Sim. Nos Estados Unidos, que foi onde tive experiência, a residência é encarada como um trabalho estruturado: há controle de horas, remuneração progressiva, protocolos de segurança e acompanhamento emocional. Não é perfeito, mas há um entendimento institucional de que o residente tem limites. No Brasil, ainda existe a ideia de romantizar o sofrimento, como se fosse parte necessária da formação.
Simesp: Em sua trajetória pessoal, houve algo que ajudou a enfrentar esse período?
Júlio Pereira: O apoio familiar foi essencial. Eu vinha de uma família que não era da área da saúde, então eu precisava explicar tudo que vivia, e isso virou um espaço de acolhimento. Também encontrei bons preceptores, pessoas realmente dedicadas ao ensino. Mas sei que isso não é a regra; muitos colegas passaram por situações muito mais difíceis sem qualquer suporte.
Simesp: Para encerrar: que conselho você daria a quem está prestes a iniciar uma residência?
Júlio Pereira: Primeiro, entender que a residência é um processo de aprendizagem, não uma prova de resistência. Procure apoio quando precisar, converse com colegas, reconheça seus limites. E lembre-se: o objetivo é se tornar um bom médico, tecnicamente preparado, mas também emocionalmente saudável. A formação não pode destruir quem você é.