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   Editoria: De: Até:    

17/06/2019
Medicina é prejudicada com cortes nas universidades federais

 

Nicolli Oliveira


SIMESP
“Pesquisa com pele de tilápia da UFC no tratamento de queimados será testada pela Nasa”. “Ufal consegue patente nos Estados Unidos para pomada que cura infecções do HPV”. Manchetes como essas, de pesquisas da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Federal de Alagoas, respectivamente, poderão deixar de existir após o corte de verbas de 30% nas universidades federais, anunciado em abril pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub.

De acordo com Carlos Roberto Jamil Cury, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), como os cortes foram lineares, prejudicarão o conjunto dos estudos que estão sendo produzidos. “Há determinadas pesquisas, sobretudo as laboratoriais, que terão impacto mais imediato. O que faz com que elas sejam altamente prejudicadas, seja no seu prosseguimento ou até mesmo na sua extinção. Isso seria um duplo desperdício de recursos públicos”, afirma.

É o que sente na pele o médico André Báfica, que atua como professor de imunologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sem a possibilidade de contratação de pessoal técnico especializado, o laboratório em que atua terá dois projetos promissores paralisados, um sobre uma forma de modular a resposta imune humana contra a tuberculose e outro sobre um alvo terapêutico que atua na disseminação da doença.

A princípio, os cortes seriam destinados a três universidades devido a atitudes nomeadas como “balbúrdia” pelo ministro Weintraub. Com o argumento de cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal e o teto de gastos, os cortes foram ampliados para outras unidades federais de ensino superior e para todas as fases da educação, incluindo a básica. De acordo com dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento do Governo (Siop), o valor do contingenciamento já passa dos R$7 bilhões.

Já no início de maio, o corte foi estendido às novas bolsas de mestrado e doutorado concedidas pela Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação (MEC). Segundo reportagem do portal G1, o contingenciamento já fez a Capes perder R$ 819 milhões, resultando no anúncio do corte de 5 mil bolsas de pesquisa concedidas pela instituição.

A retirada de verbas impacta diretamente nos planos de carreira acadêmica, como é o caso de Báfica. “Estou no processo de desistência de fazer pesquisas competitivas com cooperação internacional. Por exemplo, este ano reduzi as colaborações em cerca de 50%, pois não há financiamento para missões de estudos e compra de reagentes”.

De acordo com o estudo “Pesquisa no Brasil - Um relatório para a CAPES”, realizado pela empresa Clarivate Analytics, 99% das pesquisas nacionais são realizadas em universidades públicas. Além disso, o país está entre os 15 países com maior número de estudos científicos no mundo.

Cury explica que hoje existe uma grande possibilidade de levar a diante pesquisas que podem resultar em patentes e outras formas de presença do Brasil no âmbito internacional e da efetividade do desenvolvimento nacional. Para ele, a consequência do contingenciamento será a pior possível.

Para Báfica, os avanços dos estudos básicos em medicina que estavam começando a aparecer em vários laboratórios do país, agora devem retroceder consideravelmente. “O país dependerá ainda mais de medicamentos, kits diagnósticos e tecnologias importadas. A previsão é a de que o contribuinte pagará ainda mais caro por tudo isso por meio do SUS (Sistema Único de Saúde) ou do plano de saúde”.

Ainda segundo o professor da UFSC, o impacto futuro será ainda maior, já que o corte das bolsas não permitirá o treinamento de pós-graduandos em nível avançado (mestrado, doutorado e pós-doutorado).

Jamil Cury acredita que, para a situação melhorar, é preciso que, de alguma forma, os recursos sejam retomados para que as pesquisas não sejam interrompidas. Além disso, “seria importante haver uma conjugação que articularia recursos nacionais e estaduais vindos do poder público com apoio da iniciativa privada e que houvesse também uma gestão efetiva no interior das nossas universidades”.


Brasil se manifesta
Estudantes de todas as áreas e demais cidadãos se manifestaram pela segunda vez no dia 30 de maio, em mais de 100 cidades, contra os cortes na educação anunciados pelo governo Bolsonaro. Estima-se que mais de 1 milhão de pessoas tenha participado do ato. Só na cidade de São Paulo, foram cerca de 250 mil manifestantes, segundo a União Nacional dos Estudantes (UNE).

Médicos residentes aderiram à mobilização por entenderem que esse contingenciamento repercute em todos os programas de pós-graduação em que muitos médicos hoje estão inseridos.

Ainda, no dia 15 de maio, foi realizado o primeiro ato dos estudantes contra o bloqueio em todas as capitais do Brasil e em mais cerca de 150 cidades.
 







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