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13/06/2019
“Os cortes estão atingindo o que já era o pior orçamento da década”
Stéfanni Meneguesso Mota

Maria Cristina Pereira Lima: “Com os cortes, o grande gargalo da pesquisa é manter uma infraestrutura mínima”


SIMESP
Jair Bolsonaro anunciou um corte em 30% no orçamento repassado a universidades federais para pagamento de despesas discricionárias (de custeio e investimento). Em contrapartida, o movimento estudantil se uniu a funcionários das universidades, entidades sindicais e outros setores da sociedade civil em manifestações nas capitais do país. Para explicar o impacto desse contingenciamento de verbas na medicina, conversamos com a psiquiatra Maria Cristina Pereira Lima, vice-diretora da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Para ela, “mesmo que não mate a nossa pesquisa, os cortes devem causar um impacto negativo muito grande”, uma vez que incidirão diretamente sobre os gastos com infraestrutura e insumos para pesquisas, além de bolsas de pós-graduação.

Qual é o papel da universidade para a produção de conhecimento técnico na medicina?
É fundamental. Na verdade, mesmo uma pesquisa que não tenha aplicação direta para a medicina num primeiro momento, acaba se mostrando um avanço importante, como por exemplo os antibióticos e outros recursos mais avançados para a saúde. Além disso, a maior parte das pesquisas que acontece não só no Brasil, mas em outros lugares do mundo, parte de recursos públicos e acontece nas universidades.

Há exemplos de grandes descobertas da área médica que vieram de pesquisas nas universidades federais?
Boa parte das pesquisas acontecem em grandes parcerias entre universidades de diferentes inflexões, desde o desenvolvimento tecnológico até pesquisas de avaliação de políticas públicas, tudo isso acontece majoritariamente nas universidades e impacta na vida das pessoas. Recentemente, um aluno nosso estudou o impacto da Lei Seca de 2008 sobre a mortalidade nos acidentes automotivos. Um estudo desse indica se uma política pública está indo na direção adequada ou não. A questão da combinação de álcool e direção não é algo no qual a indústria teria interesse. Então, muitas vezes uma pesquisa que é importante para a população, só acontece nas universidades porque não tem o potencial de gerar lucro. Daí a importância do conhecimento que acontece nas universidades, uma vez que ele é um conhecimento não necessariamente vinculado à obtenção de um produto que possa ser comercializado e gerar lucro. Nada contra as pesquisas que têm esse objetivo, mas as universidades são um importante passo na construção de todo e qualquer conhecimento.

O Ministério da Educação anunciou no dia 30 de abril, o corte de 30% dos repasses orçamentários para universidades federais. Na prática, o que isso significa? Dentro da atual organização do ensino superior, quais serão as áreas mais afetadas?

Na prática, isso significa que, mesmo que não mate a nossa pesquisa, haverá um impacto muito grande e prejudicial. Esse percentual de corte, que o governo tem chamado de contingenciamento, não está relacionado a salários, mas está relacionado às despesas contratuais como água, energia elétrica e bolsas que são vitais para o desenvolvimento das atividades de pesquisa. Para se ter uma ideia, a CAPES, que é uma fomentadora da pesquisa e apoia a pós-graduação e de certo modo a possibilita, bloqueou o sistema no mês de maio, impedindo novos pedidos de bolsa.
Alguns pesquisadores terminaram o projeto em abril, outros esperavam uma bolsa depois de passar pelo processo seletivo e isso agora está impossibilitado. Foi um golpe doloroso na pesquisa do país, que levou a toda uma manifestação da sociedade em prol das universidades para que o MEC reveja esse contingenciamento.

O congelamento de recursos também traz prejuízo à progressão da carreira acadêmica médica?
Sim. O médico, com todo respeito a todas as categoriais profissionais, já demora para iniciar o curso e tem na graduação uma formação de seis anos. A avassaladora maioria faz especialização, levando mais tempo para concluir a residência médica. Quando chega lá na frente, toda a produção acadêmica dele já é atrasada por conta do longo processo de formação. Quando você não tem insumos, espaços de pesquisa, isso prejudica quem busca uma formação de pós-graduação e pesquisador.
É importante destacar que a pesquisa é o que dá soberania a um país. É o que faz com que um país seja o mais independente possível ou esteja num melhor patamar de negociação com outros países. A pesquisa é superimportante para o país como um todo.

Como o corte afeta os avanços de tratamentos e pesquisas médicas que estão sendo desenvolvidas atualmente?
Todas as áreas têm prejuízo, mas pensando nas áreas biológicas, muitas pesquisas dependem de processamento e análise de material biológico. Frequentemente, utilizamos freezers e equipamentos para a mantimento desse material e a manutenção não é barata. Assim, as universidades acabam tendo que fazer cortes em outras áreas pra honrar as despesas com energia elétrica, por exemplo. Com os cortes, o grande gargalo da pesquisa é manter uma infraestrutura mínima. Não estamos falando de equipamentos caros ou capacitação de profissionais, falamos de equipamentos básicos como água e energia elétrica. Os cortes estão atingindo o que já era o pior orçamento da década, que já tornava custoso gerir a universidade.

De acordo com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil, os principais cortes também incidem na implantação de hospitais universitários. Como isso compromete a formação dos novos médicos e atendimento à população local?

Os hospitais ligados às universidades são, em muitos lugares, a única referência para atendimentos de alta complexidade. O contingenciamento afetou o custeio da água, luz e medicação, e isso realmente pode afetar muito a população que é atendida nesses serviços a curto prazo. A médio e a longo prazos, o prejuízo à formação de médicos prejudica a população também.

O que podemos esperar do futuro da pesquisa se os cortes forem mantidos?
O que acaba acontecendo é que todo mundo fica muito receoso de começar novos projetos. Quando você entra num programa de pós-graduação, você conta com um determinado número de bolsas. Por isso, já se elabora um projeto de pesquisa amplo, que conte com vários alunos. Mas tudo isso recua na hora de avançar na produção de conhecimento, quem normalmente submeteria um projeto maior, opta por um projeto menor. A gente sofre aquilo que os economistas chamam de crise de confiança.

Qual seria o cenário ideal para o desenvolvimento de pesquisa e melhora progressiva da qualidade do ensino superior?
Aquilo que se busca como cenário desejável é o fomento à pesquisa independente. Sem fazer juízo de parcerias público-privadas, de apoio da indústria, mas precisamos de desenvolvimento de pesquisas por parte das universidades ou mesmo por parte de institutos independentes. O Estado precisa priorizar saúde e educação; o profissional médico, bem formado, com senso crítico, com papel bem definido na pesquisa, é um profissional melhor. Isso é o que a sociedade civil está entendendo, acho que tem um lado bom nessa crise, que está sendo divulgada a potência das universidades e o papel dos pesquisadores.







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